sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Como são as férias em Salvaterra...


Apesar de não ter participado na blogagem sobre as “férias na minha aldeia”, não podia deixar de vos contar como são as férias nesta bonita e pacata vila, situada num dos extremos de Portugal.
O que custa nisto de passar férias aqui, para mim são apenas duas coisas: a chegada e a partida… Com tantos quilómetros a percorrer e com a ânsia de cá chegar, torna-se muito cansativa a viagem; e depois de uns belos dias aqui passados, custa imenso partir, regressar ao trabalho, às preocupações do dia-a-dia, à rotina e ao stress. Mas tem de ser, e a vida é assim mesmo: feita de chegadas e partidas.
Por isso é aproveitar bem tudo o que esta vila tem para nos oferecer, pois as férias aqui, são mesmo férias…
Aqui o tempo parece dobrar-se a ele próprio, pois sobra-nos tempo para tudo e mais alguma coisa. As horas parecem não ter fim.
Aqui reina o silêncio e a calma. Aqui há muita História para descobrir; há acolhimento, simpatia e solidariedade nas gentes. Há sempre um sorriso de quem passa e a devida salvação; aqui, mesmo que não se conheçam ainda reina a boa educação e há sempre um bom dia, boa tarde ou boa noite.
É incrível como nas cidades anda tudo tão carrancudo, e aqui um sorriso nasce espontaneamente no rosto de quem passa.
Aqui bastam apenas dois dias de estadia para ficarmos logo com uma corzinha mais rosada nas faces. É o contraste entre a palidez da vida nas cidades, e a vida saudável no campo. Mas apesar de saudável quem cá vier não deve deixar o protector solar em casa, pois no Verão a partir das 10 da manhã, torna-se um suplício andar na rua, com tanto calor…
Agosto é por excelência o mês mais movimentado do ano, pois é o mês em que os filhos da terra regressam, enchendo as ruas de vida.
Se puderem tragam bicicleta, pois deve ser agradável percorrer a vila e as redondezas de bicicleta. Na impossibilidade de ter trazido a minha, ainda fui perguntar à “Casa do forno” se alugavam bicicletas, mas não: “temos algumas, mas são apenas para os hóspedes”, respondeu-me o dono.
“Podiam alugar também a quem viesse de fora”, respondi eu, uma possível cliente.
Mas não. Já tinham pensado nisso, mas envolvia terem de fazer um Seguro e depois só dava chatices.
Tive de me conformar e seguir o meu caminho a pé…
Mas também, como poderia eu fazer o percurso da “rota dos abutres” de bicicleta? Impossível naquele caminho romano que vai dar ao rio.
E esta garanto-vos: é das mais belas caminhadas que podem fazer: partindo do adro da igreja, e para quem não conhece, basta ir seguindo as placas pintadas com 2 riscas que assinalam o caminho.
Para quem não está habituado, é uma dura caminhada de 1,5 km até ao rio, pois há que descer a encosta, mas depois, também subir, o que custa mais. É como se diz: “para baixo todos os santos ajudam”…
A mim ficam-me sempre a doer as pernas ao fim do dia. Já minha avó fazia este caminho todos os dias, para ir ainda mais longe para lá do rio. Porque antigamente a vida era dura, chegava ao rio tendo de o atravessar a custo no Inverno, pois não havia ponte, e tinha de percorrer mais 4 kms para chegar à vila espanhola mais próxima: Zarza la Mayor. Era o tempo do escudo e das pesetas; era o tempo em que a vida em Espanha era mais barata que em Portugal, o que fazia com que ela fizesse o mesmo caminho de volta, carregada, com sua rodilha na cabeça e a alcofa abastecida… Mas este é um assunto que merecerá ser, por si só, mais aprofundado…
Agora fiz um desvio no tema das férias, porque me vieram à cabeça certas recordações.
Mas continuando: ao chegar ao cemitério da vila, ao “campo da egualdade” (sim, o cemitério é tão antigo que, igualdade se escrevia com “e”), viramos à direita e aí, seguimos até à caseta, um antigo posto da guarda fiscal, onde existe agora um observatório de avifauna. Esqueço-me sempre dos binóculos, e depois fico-me sempre por uma observação ao longe, muito ao longe, das aves que planam livremente lá por cima…
Mas mesmo que não se vislumbrem aves de rapina, só pelas belas paisagens já vale a pena o esforço da caminhada.
Aliás, quando chegamos mais abaixo, somos mesmo recompensados com a pura e fresca água da fonte da ribeira, onde tanta vez veio meu avô com seu burro, buscar água nas cântaras, pois não havia água canalizada.
E se continuar o percurso, chegará ao “salto da cabra”, à garganta do rio Erges, onde com toda a certeza, se sentará numa rocha e ficará perdido e deslumbrado a olhar para tamanha beleza.
Para mim é o que de melhor existe nesta terra: a natureza que nos envolve e purifica a alma. O poder banharmo-nos no rio despoluído que agora nos dá duas opções: ou a praia fluvial de um lado, ou o rio do outro. O poder ouvir toda a sinfonia que a natureza nos oferece, com o piar de tanta ave de espécies diferentes.
Ouvir também o vento sussurrar nas árvores, fazendo baloiçar alegremente os seus ramos e folhas. É o deixarmo-nos envolver completamente pela natureza, e sentirmo-nos vivos.
É o podermos passar por uma figueira e provar os seus doces figos, ou pelas amoreiras e colher as madurinhas amoras. Hummm e que boas que são. Posso sair de lá toda cheia de arranhões nas mãos, mas tudo passa quando as provo.
É de manhã ao acordar, abrirmos a janela e sermos contagiados pelo ar fresco e puro da manhã. É como já disse: o silêncio, a calma e a paz.
As férias na minha vila são melhores que no melhor dos hotéis de 5 estrelas, por tudo o que falei, pelo que não falei, e pelo melhor dos espectáculos nocturnos que só um céu estrelado nos pode oferecer. E este, não tenho sequer palavras para o descrever; simplesmente, perco-me a olhar para ele…

1 comentário:

Susana disse...

Cristina:

Que pena não teres participado...gostei de ler o teu texto...dá vontade de ir e ficar por lá...quando fiu à vossa procura, também estive a observar o mapa da rota dos abutres e pensei: quando os meus filhotes forem um pouco maiores (tenho um com 2 e outro com 6 anos), iremos passar um fim de semana por esses lados,para fazer esses percursos. Mas na Primavera, enquanto não está esse calor que descreves, que acredito que está no Verão.


Bjs Susana