sábado, 4 de junho de 2011

"Salva a terra"...



No próximo fim-de-semana, Salvaterra irá ganhar vida, com a realização de um eco-festival organizado pela Quercus de Castelo Branco e pela Velha Gaiteira e com o apoio da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova e da Junta de Freguesia de Salvaterra do Extremo.
Deixo-vos aqui os pormenores do que irá acontecer:


SALVA A TERRA: Eco-Festival de Música



Data: 9 a 12 de Junho de 2011

Local: Salvaterra do Extremo (Idanha-a-Nova)


Missão: angariar fundos que permitam que os voluntários do CERAS- Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco continuem a desenvolver o seu trabalho com a eficácia e eficiência que lhes é reconhecida, e através da aquisição de mais e melhores meios para recuperar um número crescente de animais selvagens que chegam até nós a necessitar de cuidados médico-veterinários e recuperação adequada.

Actividades previstas:

Concertos:
Velha Gaiteira,
Pé na Terra,
Uxu kalhus,
Sebastião Antunes,
Charanga,
Ninho,
Frankie Chavez,
Didgenbass,
Xícara,
Sabão Macaco.

Dj's:
DJ Rosmanix
DJ Zeek & Trasgo
DJ António Pire - DJ Raquel Bulha (Dj batle)

Percursos pedestres:
Património construído de Salvaterra do Extremo,
Rota dos abutres,
Geologia,
Rota do contrabando

Workshops ambientais:
Charcos com vida
Construção de marionetas (reutilização de materiais)
Fotografia de natureza
Biopesticidas, insecticidas e adubos caseiros
Fotografia Macro

Workshops para crianças:
Hortas em caixotes de fruta
Comedouros para aves
Construção de casas-ninho para insectos benéficos
Construção de marionetas (reutilização de materiais)

Workshops de Música/dança:
Danças tradicionais
Didgirido (construção e toque)
Adufes

Conferências:
Condomínio da Terra- Paulo Magalhães
Significado: a música portuguesa se gostasse dela própria- Tiago Pereira

Outras Actividades:
Passeios de bicicleta e de burro
Jogos Tradicionais
Contadores de Histórias
Banhos no rio

E como em tudo, também aqui haverá regras:
Os cães são bem-vindos mas devem andar sempre pela trela e com açaime se necessário;
Não é permitido fazer fogo em nenhum local do festival;
Se perder ou encontrar algo, procure ou entregue nos perdidos e achados;
Os dias são muito quentes, por isso traga: chapéu, protector solar e beba muita água durante o dia.

Aqui fica um horário de toda a programação:


Para mais informações e inscrições, consultem o site:
https://www.facebook.com/mobileprotection#!/Salva.a.Terra?sk=info


Apareçam vocês também, e venham conhecer esta secular vila, com tantos encantos e recantos por descobrir…

terça-feira, 26 de abril de 2011

Este blog serve, não só para homenagear a vila de meus antepassados, mas também para deixar a meu filho, lembranças de momentos inesquecíveis passados, também ele aqui, na companhia dos avós.
Hoje ainda não dá o devido valor, a momentos que não voltam mais, mas sei que um dia, sorrirá só de os relembrar…
Este ano viemos para Salvaterra mais cedo, logo no dia 17. Domingo e Segunda tivemos um tempo espectacular de Primavera/Verão, mas na Terça tudo mudou, tendo chovido o tempo todo durante 4 dias, o suficiente para fazer crescer o rio.
Como o meu pai tinha tirado ao neto, no “Ayuntamiento de Zarza la Mayor” a devida licença para pesca, o Tiago teve esta Páscoa, a sua primeira experiência piscatória no rio Erges.
Assim, na margem espanhola do rio, era vê-los atarefados a preparar os anzóis e a lançar a linha…

O isco eram as minhocas que o Tiago apanhara no quintal, sonhando voltar para casa, com peixe para o jantar…
O avô que nunca fora pescador, nem tinha tido qualquer experiência a este nível, tentava ensinar o neto, o melhor que sabia. Deram tantas voltas ao carreto, que a linha se enrolou toda e ficaram ali imenso tempo a desenrolá-la. Até deu tempo para eu pegar no carro e ir a Ceclavín encher o depósito.
Quando voltei, estava já o meu pai a ensinar ao neto, como espetar a minhoca no anzol.


Espetou a minhoca, tendo ficado parte dela a abanar, para que os peixes vissem que o animal estava vivo e era um bom petisco.
Ao lançar a linha, tal foi a força que fez, que esta se partiu, levando com ela a chumbada, a minhoca e o anzol… E foi vê-los a voar, quase para a outra margem do rio… Claro, foi risota geral. A seguir foi a vez do neto preparar o engodo e lançar a linha ao rio. Como que por intuição, afastámo-nos dele; mesmo assim, o anzol prendeu-se nas calças da avó que estava por perto.
“-Foi o vento que me trocou as voltas…”- dizia ele.
E o avô à gargalhada afirmava: "Olha! Olha! O Tiago pescou um tubarão..."
Quando por fim, lá apanharam o jeito a lançar a linha, era vê-los felizes, porque sentiam o peixe de volta do isco, e já imaginavam o bicho temperado, pronto a ser cozinhado…


Só que quando puxavam a linha, vinha o anzol com a minhoca metade comida. Ah! Afinal os peixes deste rio, parece que de parvos, nada tinham.
Então a estratégia dos “pescadores” mudou: com muita paciência e mãos hábeis, espetaram a minhoca toda no anzol.
“-Agora, se a quiserem comer, hão-de ficar lá presos” – dizia o avô esperançado.
E o suspense de sentir o peixe de volta do isco repetiu-se. E quando enrolaram a linha, surpresa das surpresas, a minhoca desaparecera.
“-Mas como é que é possível?” – perguntavam-se indignados.
A explicação que encontraram é que a minhoca afinal sabia nadar e tinha fugido.
E a avó, que pacientemente tentava a sua sorte com os peixes mais pequenos, e uma rede, com os quais pensava enganá-los, só se ria.


E foi assim, uma tarde deliciosa para os peixes, e uma grande desilusão para os pescadores enganados.
Uma tarde que acabou com o céu a escurecer, e pequenas gotas de chuva a desenharem círculos no rio.
Como que adivinhando que os pescadores estavam de partida, viam-se peixes a vir à tona, e agitarem a água, como que dizendo:
"-Venham mais vezes, adorámos o petisco!"...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Este ano, em Salvaterra, por falta de festeiros, não se cumprirá a tradição do bodo.
Teremos à mesma a procissão, mas e depois?

Depois, segundo alguns conterrâneos, vai cada um para suas casas almoçar com as famílias…

Pois, eu proponho outra coisa: porque não irmos todos à procissão e depois cada um vai buscar o seu farnel, o qual o Sr Padre não se importará de benzer à mesma, e almoçamos no recinto do bodo, fazendo a festa à nossa maneira? Faríamos um enorme piquenique, e o mais importante: estaríamos todos juntos em pleno convívio.

Para mim não significa assim tanto este convívio, pois não sou filha “directa” da terra; mas para meus pais e outras pessoas da mesma faixa etária, tem um enorme significado reverem-se e poderem conviver. É o encontrar amigos que só se vêem uma vez por ano, amigos de infância, amigos de traquinices partilhadas e vidas sofridas. É o recordar de histórias felizes ou amargas… Com certeza, N. Sra. da Consolação ficaria bem contente por ver que seus filhos continuam juntos, e não dispersos pela vila.

Por isso, que se continue com a tradição é o que é preciso, ainda que um bocadinho modificada…

Uma Páscoa Feliz a todos!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Até o "homem" vai perder o "h"...

Ontem à noite, enquanto fazia os tpc’s de Português, meu filho contou-me a novidade:
- Sabes, mãe? A professora disse que para o ano, “homem” vai perder o “h”.
- O quê??? – exclamei eu, incrédula.
- Pois é, para o ano quem escrever “homem” com “h”, a professora vai contar como erro…
- Não posso crer! – exclamei eu, ainda mais incrédula…
- É verdade sim! – diz ele.
- Então podes dizer à tua professora o seguinte, mas dizes mesmo: “ olhe professora, a minha mãe mandou dizer que lá em casa, homem sem “h” NÃO ENTRA”…

Este meu relato quase parece anedota, mas aconteceu mesmo.
Antes fosse anedota, era sinal que o acordo ortográfico não tinha sido inventado.
E isto vem mesmo a propósito da Resolução do Conselho de Ministros nº 8/2011, publicada hoje em Diário de República.
Como podem eles aqui defender a língua portuguesa, e aplicarem um acordo que se o Camões fosse vivo, perdia o outro olho.
Começam então por dizer: “A língua portuguesa é um elemento essencial do património cultural português. A protecção, a valorização e o ensino da língua portuguesa, bem como a sua defesa e promoção da difusão internacional, são tarefas fundamentais do Estado, consagradas na Constituição…”
(…)
Depois de muita “palha”, acabam por determinar que o acordo entre em vigor a partir de 1 de Janeiro de 2012, e que seja já aplicado nos manuais escolares para o ano lectivo 2011/2012.
E sem mais palavras me retiro, informando os prezados leitores, que neste blog, acordo ortográfico TAMBÉM NÃO ENTRA…

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Antiguidade perdida no tempo...

Geralmente, ninguém da minha família costuma ir a Salvaterra durante o Inverno. Só que este ano, a velhinha casa de família teve habitantes por muitas semanas. Como o frio é muito, tiveram de recorrer à pilha de lenha que há anos, se encontra guardada no curral. Ainda vem do tempo de meus avós. Todos os dias a fazer uso da braseira, claro que a pilha de lenha foi diminuindo. E às tantas, no meio da lenha, aparece um estranho objecto que ninguém consegue identificar.
Também ele feito de madeira, bem esculpido, mas muito maltratado pelo tempo, não fazemos ideia do que seja, ou para que tenha servido. Tem duas argolas de lado, e em cima uma saliência que tem no meio um buraquinho; sinal que teve ali alguma coisa espetada, não sei…
Só sei que me intriga, por não saber o que é.
Se por acaso alguém souber, agradeço a informação.
Bem haja!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Há muitos anos que não vinha a Salvaterra no mês de Dezembro, desde que meus avós eram vivos…
Faz cá tanto frio, mas este fim-de-semana amenizou, e tivemos dois dias lindos.
Chegámos à vila na Sexta-feira já de noite, e logo à entrada fomos recebidos com as Boas Festas.
Ao chegar ao adro, apesar da tradição já não ser o que era, e na falta do madeiro, que costumava chegar sempre no dia 8 de Dezembro, temos também a Igreja Matriz e a capela da misericórdia iluminadas, como que prontas para a missa do galo do dia 24.
Ao chegar a casa esperava-nos uma braseira quentinha, e o abraço ainda mais quente de meus pais, que já não via há umas semanas.
Perguntei-lhes, então, pelo madeiro. A resposta foi: “nesta altura não há cá quase ninguém, e só já vão buscar o madeiro mesmo na véspera de Natal, para que passe toda a noite aceso, e possa aquecer os corações de quem ainda regressa à vila para a missa do galo”…
A tradição de outrora foi-se…
No dia seguinte acordei às 7:00h, e escusado será dizer que não voltei a adormecer.
Abri a janela e a neblina estendia-se pelos campos a perder de vista. Há uns anos que não via assim Salvaterra. Dizem meus pais que na semana passada o frio foi tanto, que cobriu de neve as serras à volta, tornando ainda mais bonita a paisagem. Só que a neve não aguentou até nós chegarmos, pois a chuva que veio depois, derreteu-a toda.
Oh, que pena não ter podido ver! - pensei eu.
Começa então a nascer o Sol, e ao olhar para o recinto do bodo, vejo carros a chegar.
Ah! Afinal ainda há gente mais madrugadora que eu: os caçadores, que pelos vistos vêm todos os fins-de-semana, para infelicidade dos animais que com eles se cruzam…
O Sol começa agora a nascer e começam a acordar as aves, cujos piares se misturam a meus ouvidos, não os conseguindo identificar.
Enquanto todos em casa ainda dormem, vou dar uma volta… O frio é muito, mas a vontade de rever Salvaterra é maior, e assim, faço-me ao caminho…
Os campos estão lindíssimos nesta época, se bem que os campos na Primavera também sejam bonitos, nesta altura estão mais verdes que nunca… Cheira a natureza húmida, as árvores estão quase despidas, nas oliveiras a azeitona “já está preta”, há musgo por todo o lado, e até nas fendas das rochas nascem plantas... Os cogumelos fazem agora a sua aparição... O frio é cortante, mas a alegria de andar por estes campos é maior. Lá em baixo, o rio vai cheio; tão cheio que passa por cima da ponte, interditando o trânsito…
Adoro os tons verdes, castanhos e dourados, com que a natureza se vestiu.
Lá em cima, as águias vigiam silenciosas…
A chuva foi tanta nos últimos dias que formou riachos por todo o lado.
Ah, como está linda Salvaterra…
Passámos dois dias em paz e sossego, e principalmente, junto de quem mais amamos…
Só é pena que Salvaterra esteja tão deserta; só é pena que já não haja quem faça cumprir as tradições…
Restam-nos as recordações de outros tempos…
À noite refastelámo-nos com castanhas assadas na braseira. Pensei que iam sair de lá todas queimadas, mas não… Fizemos como se fazia antigamente: dá-se uns golpes à castanha, abre-se uma covinha no meio das brasas, onde metemos a castanha, e tapamos com as cinzas. Nem sequer faz fumo e saem de lá bem assadinhas. Uma delícia…
A braseira aquece-nos o corpo, e o estarmos juntos, aquece-nos o coração…
Desejo a todos vós, que tendes paciência para me ler até ao fim, que também esta época tão especial aqueça os vossos corações, e assim os mantenha o resto do ano…
Boas Festas!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma experiência para a vida…

E de repente, vi-me numa maca, a ser levada pelas auxiliares, por corredores e elevadores, até ao bloco operatório.
Ali me deixaram num corredor longo e imenso, com muitas portas e sempre muita gente a passar. “Agora fica aqui um bocadinho, que já vêm ter consigo”- disse-me uma das auxiliares.
E eu esperei. Ora deitada, ora levantando a cabeça para tudo mirar. Esperei pouco tempo. Mas esse pouco tempo, pareceu-me uma eternidade, porque os nervos iam aumentando. Ainda estava a tempo de desistir, pensei. Mas já tinha chegado até aqui, e passar o resto da vida a sofrer… Não, era melhor sofrer agora, e passar o resto da vida livre deste mal…
É incrível o cérebro humano: numa questão de poucos minutos, passam-nos milhões de coisas pela cabeça. O pior é que nem todas boas. Era o pessimismo e os nervos a aumentarem. Neste momento, o meu maior medo nem era o pós-operatório, mas sim este preciso momento, pois imaginava-me a ser alvo de uma troca de identidades, e a ser levada para uma sala onde me operariam a outra coisa qualquer… Não seria a primeira vez, lol… Hoje já brinco com a situação, mas naquela altura não.
“Olá boneca!” – oiço uma voz vinda por detrás da maca.
Não sei porquê, lembrei-me de meu avô, que estava sempre a chamar isso àquela que fazia parte de sua vida, e que ele cuidava como se fosse uma pessoa: a sua burrita, que tanta vez lhe foi buscar água à fonte. Foram grandes companheiros. E como a “boneca” lhe obedecia; acho até, que ela já sabia o caminho de cor para a fonte. Diz-se que os burros, apesar do nome, são animais muito inteligentes. E eu acredito que sim, pois contam-se imensas histórias de aventuras com seus donos. Meu pai costumava contar que certo senhor lá na vila, o “Ti… qualquer coisa”, que agora não me lembro o nome, geralmente andava sempre “borracho”, e quando ia buscar água, montado na burra, perdia a consciência, com certeza, e a burrinha levava-o sempre de volta a casa…
Hoje os burros são animais em extinção. Quem sabe se por já não precisarem dos seus serviços…
Mas aqui estava eu, prestes a ser operada, e a pensar em coisas incríveis…
“Está tudo bem?” – perguntou então a voz que me tinha chamado “boneca”…
Respondi que sim, mas pensei: “estava tudo bem até você chegar e começar a espetar-me uma agulha na mão para pôr o soro…”
“É doente do Dr Leitão, não é?” – perguntou ela.
Vá lá! Iriam levar-me ao Dr certo, lol.
Entretanto chegou o anestesista. Um senhor já de idade, que o médico me havia dito que fazia por dia uma média de 16 epidurais.
Fiquei mais descansada, pois devia saber o que faz. Quando me espeta então a agulha nas costas, mesmo na coluna vertebral, e começo a sentir um líquido a entrar. “Ui, isto dói imensooooooo”, e aumenta o meu sofrimento.
Esperámos um bocadinho que fizesse efeito, e lá vou eu para o bloco operatório. Já não sentia nada do peito para baixo. Meu Deus, que estranha sensação…
Confesso que imaginava uma sala de operações cheia de aparelhos por todo o lado, e tudo muito atafulhado de coisas. Pensamentos de quem nunca se viu nesta situação. Ao invés, encontrei uma sala gelada, com paredes de pedra mármore, umas luzes redondas enormes no tecto e uma bancada com instrumentos. Mais tarde uma enfermeira explicou-me que o frio evita a propagação de micróbios ou bactérias prejudiciais, e quanto menos houver numa sala, melhor, pois no fim de cada operação tudo é esterilizado. Só têm mesmo o necessário…
E ali estava eu… O médico sempre brincalhão, tentava animar-me. Ao todo, eram seis pessoas na sala. Eu ia ouvindo as suas conversas, enquanto o médico ia explicando aos outros, o que estava a fazer e como deviam fazer, etc…
Termos técnicos médicos, dos quais eu nada percebia. Assim, decidi rezar umas quantas Avé-Marias, e colocar-me totalmente sobre a protecção divina…
Na minha cabeça iam passando cenas da minha vida, e pensava: se sobrevivesse a isto, iria deixar-me de ocupar o tempo com coisas fúteis, pois tenho tanto ainda que fazer, e não sei o tempo que me resta. Projectos começados e inacabados, que eu ia pensando, em qual pegaria primeiro quando estivesse restabelecida.
Estava eu com meus pensamentos, quando fui como que acordada pelo médico, que veio à cabeceira, acenar-me com um bocado de pele roxa, que segurava com uma pinça. “Está a ver? Esta malvada não vai mais incomodá-la…” Lembro-me que fiz uma cara de repulsa, mas ainda pensei: como é que os médicos aguentam, sem vomitar, abrir-nos, ver e mexer nestas coisas?…
A operação durou apenas meia-hora. Pensar que em meia-hora, me livrou de 11 anos em sofrimento…
Médicos são anjos, com mãos divinas, aos quais só temos de agradecer quando no
s livram de algum mal.
Saí da sala gelada; passado um bocado toda eu tremia.
Levaram-me de volta para o quarto.
Tudo parecia bem e eu sem dores. Pudera, ainda estava sob o efeito da anestesia. Apalpava as pernas e a barriga e nada sentia. Demorou imensas horas a passar o efeito. Nesse espaço de tempo, pensei muitas vezes nos paralíticos. Agora sabia o que sentiam… Só que a diferença era que a mim me passaria, e a eles não. Senti-me uma sortuda, pois há pessoas com problemas bem maiores que o meu. Conseguir andar, é um acto que fazemos com tanta naturalidade, que nem damos valor…
Tive um pós-operatório muito doloroso. E só pensava como é triste estar doente. Como é triste nem conseguirmos levantar-nos, nem fazer a nossa higiene diária…
Estar dependente dos outros, é muito triste. E o período que passei em recuperação, em que não conseguia fazer nada, serviu para começar a dar mais valor àquilo que conseguia fazer antes.
E hoje, sempre que posso, agradeço a Deus tudo ter-me corrido bem, e aos poucos poder recomeçar a fazer a minha vida normal. Agradeço o andar, o sentir, o tocar, o cheirar, o olhar, o ouvir… Agradeço as minhas faculdades físicas e mentais, e agradeço, principalmente, por estar viva…
Desejo a todos aqueles que estão doentes, uma rápida recuperação, e que tenham neste Natal, o maior presente que se pode ter: muita saúde…