sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Antiguidade perdida no tempo...

Geralmente, ninguém da minha família costuma ir a Salvaterra durante o Inverno. Só que este ano, a velhinha casa de família teve habitantes por muitas semanas. Como o frio é muito, tiveram de recorrer à pilha de lenha que há anos, se encontra guardada no curral. Ainda vem do tempo de meus avós. Todos os dias a fazer uso da braseira, claro que a pilha de lenha foi diminuindo. E às tantas, no meio da lenha, aparece um estranho objecto que ninguém consegue identificar.
Também ele feito de madeira, bem esculpido, mas muito maltratado pelo tempo, não fazemos ideia do que seja, ou para que tenha servido. Tem duas argolas de lado, e em cima uma saliência que tem no meio um buraquinho; sinal que teve ali alguma coisa espetada, não sei…
Só sei que me intriga, por não saber o que é.
Se por acaso alguém souber, agradeço a informação.
Bem haja!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Há muitos anos que não vinha a Salvaterra no mês de Dezembro, desde que meus avós eram vivos…
Faz cá tanto frio, mas este fim-de-semana amenizou, e tivemos dois dias lindos.
Chegámos à vila na Sexta-feira já de noite, e logo à entrada fomos recebidos com as Boas Festas.
Ao chegar ao adro, apesar da tradição já não ser o que era, e na falta do madeiro, que costumava chegar sempre no dia 8 de Dezembro, temos também a Igreja Matriz e a capela da misericórdia iluminadas, como que prontas para a missa do galo do dia 24.
Ao chegar a casa esperava-nos uma braseira quentinha, e o abraço ainda mais quente de meus pais, que já não via há umas semanas.
Perguntei-lhes, então, pelo madeiro. A resposta foi: “nesta altura não há cá quase ninguém, e só já vão buscar o madeiro mesmo na véspera de Natal, para que passe toda a noite aceso, e possa aquecer os corações de quem ainda regressa à vila para a missa do galo”…
A tradição de outrora foi-se…
No dia seguinte acordei às 7:00h, e escusado será dizer que não voltei a adormecer.
Abri a janela e a neblina estendia-se pelos campos a perder de vista. Há uns anos que não via assim Salvaterra. Dizem meus pais que na semana passada o frio foi tanto, que cobriu de neve as serras à volta, tornando ainda mais bonita a paisagem. Só que a neve não aguentou até nós chegarmos, pois a chuva que veio depois, derreteu-a toda.
Oh, que pena não ter podido ver! - pensei eu.
Começa então a nascer o Sol, e ao olhar para o recinto do bodo, vejo carros a chegar.
Ah! Afinal ainda há gente mais madrugadora que eu: os caçadores, que pelos vistos vêm todos os fins-de-semana, para infelicidade dos animais que com eles se cruzam…
O Sol começa agora a nascer e começam a acordar as aves, cujos piares se misturam a meus ouvidos, não os conseguindo identificar.
Enquanto todos em casa ainda dormem, vou dar uma volta… O frio é muito, mas a vontade de rever Salvaterra é maior, e assim, faço-me ao caminho…
Os campos estão lindíssimos nesta época, se bem que os campos na Primavera também sejam bonitos, nesta altura estão mais verdes que nunca… Cheira a natureza húmida, as árvores estão quase despidas, nas oliveiras a azeitona “já está preta”, há musgo por todo o lado, e até nas fendas das rochas nascem plantas... Os cogumelos fazem agora a sua aparição... O frio é cortante, mas a alegria de andar por estes campos é maior. Lá em baixo, o rio vai cheio; tão cheio que passa por cima da ponte, interditando o trânsito…
Adoro os tons verdes, castanhos e dourados, com que a natureza se vestiu.
Lá em cima, as águias vigiam silenciosas…
A chuva foi tanta nos últimos dias que formou riachos por todo o lado.
Ah, como está linda Salvaterra…
Passámos dois dias em paz e sossego, e principalmente, junto de quem mais amamos…
Só é pena que Salvaterra esteja tão deserta; só é pena que já não haja quem faça cumprir as tradições…
Restam-nos as recordações de outros tempos…
À noite refastelámo-nos com castanhas assadas na braseira. Pensei que iam sair de lá todas queimadas, mas não… Fizemos como se fazia antigamente: dá-se uns golpes à castanha, abre-se uma covinha no meio das brasas, onde metemos a castanha, e tapamos com as cinzas. Nem sequer faz fumo e saem de lá bem assadinhas. Uma delícia…
A braseira aquece-nos o corpo, e o estarmos juntos, aquece-nos o coração…
Desejo a todos vós, que tendes paciência para me ler até ao fim, que também esta época tão especial aqueça os vossos corações, e assim os mantenha o resto do ano…
Boas Festas!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Uma experiência para a vida…

E de repente, vi-me numa maca, a ser levada pelas auxiliares, por corredores e elevadores, até ao bloco operatório.
Ali me deixaram num corredor longo e imenso, com muitas portas e sempre muita gente a passar. “Agora fica aqui um bocadinho, que já vêm ter consigo”- disse-me uma das auxiliares.
E eu esperei. Ora deitada, ora levantando a cabeça para tudo mirar. Esperei pouco tempo. Mas esse pouco tempo, pareceu-me uma eternidade, porque os nervos iam aumentando. Ainda estava a tempo de desistir, pensei. Mas já tinha chegado até aqui, e passar o resto da vida a sofrer… Não, era melhor sofrer agora, e passar o resto da vida livre deste mal…
É incrível o cérebro humano: numa questão de poucos minutos, passam-nos milhões de coisas pela cabeça. O pior é que nem todas boas. Era o pessimismo e os nervos a aumentarem. Neste momento, o meu maior medo nem era o pós-operatório, mas sim este preciso momento, pois imaginava-me a ser alvo de uma troca de identidades, e a ser levada para uma sala onde me operariam a outra coisa qualquer… Não seria a primeira vez, lol… Hoje já brinco com a situação, mas naquela altura não.
“Olá boneca!” – oiço uma voz vinda por detrás da maca.
Não sei porquê, lembrei-me de meu avô, que estava sempre a chamar isso àquela que fazia parte de sua vida, e que ele cuidava como se fosse uma pessoa: a sua burrita, que tanta vez lhe foi buscar água à fonte. Foram grandes companheiros. E como a “boneca” lhe obedecia; acho até, que ela já sabia o caminho de cor para a fonte. Diz-se que os burros, apesar do nome, são animais muito inteligentes. E eu acredito que sim, pois contam-se imensas histórias de aventuras com seus donos. Meu pai costumava contar que certo senhor lá na vila, o “Ti… qualquer coisa”, que agora não me lembro o nome, geralmente andava sempre “borracho”, e quando ia buscar água, montado na burra, perdia a consciência, com certeza, e a burrinha levava-o sempre de volta a casa…
Hoje os burros são animais em extinção. Quem sabe se por já não precisarem dos seus serviços…
Mas aqui estava eu, prestes a ser operada, e a pensar em coisas incríveis…
“Está tudo bem?” – perguntou então a voz que me tinha chamado “boneca”…
Respondi que sim, mas pensei: “estava tudo bem até você chegar e começar a espetar-me uma agulha na mão para pôr o soro…”
“É doente do Dr Leitão, não é?” – perguntou ela.
Vá lá! Iriam levar-me ao Dr certo, lol.
Entretanto chegou o anestesista. Um senhor já de idade, que o médico me havia dito que fazia por dia uma média de 16 epidurais.
Fiquei mais descansada, pois devia saber o que faz. Quando me espeta então a agulha nas costas, mesmo na coluna vertebral, e começo a sentir um líquido a entrar. “Ui, isto dói imensooooooo”, e aumenta o meu sofrimento.
Esperámos um bocadinho que fizesse efeito, e lá vou eu para o bloco operatório. Já não sentia nada do peito para baixo. Meu Deus, que estranha sensação…
Confesso que imaginava uma sala de operações cheia de aparelhos por todo o lado, e tudo muito atafulhado de coisas. Pensamentos de quem nunca se viu nesta situação. Ao invés, encontrei uma sala gelada, com paredes de pedra mármore, umas luzes redondas enormes no tecto e uma bancada com instrumentos. Mais tarde uma enfermeira explicou-me que o frio evita a propagação de micróbios ou bactérias prejudiciais, e quanto menos houver numa sala, melhor, pois no fim de cada operação tudo é esterilizado. Só têm mesmo o necessário…
E ali estava eu… O médico sempre brincalhão, tentava animar-me. Ao todo, eram seis pessoas na sala. Eu ia ouvindo as suas conversas, enquanto o médico ia explicando aos outros, o que estava a fazer e como deviam fazer, etc…
Termos técnicos médicos, dos quais eu nada percebia. Assim, decidi rezar umas quantas Avé-Marias, e colocar-me totalmente sobre a protecção divina…
Na minha cabeça iam passando cenas da minha vida, e pensava: se sobrevivesse a isto, iria deixar-me de ocupar o tempo com coisas fúteis, pois tenho tanto ainda que fazer, e não sei o tempo que me resta. Projectos começados e inacabados, que eu ia pensando, em qual pegaria primeiro quando estivesse restabelecida.
Estava eu com meus pensamentos, quando fui como que acordada pelo médico, que veio à cabeceira, acenar-me com um bocado de pele roxa, que segurava com uma pinça. “Está a ver? Esta malvada não vai mais incomodá-la…” Lembro-me que fiz uma cara de repulsa, mas ainda pensei: como é que os médicos aguentam, sem vomitar, abrir-nos, ver e mexer nestas coisas?…
A operação durou apenas meia-hora. Pensar que em meia-hora, me livrou de 11 anos em sofrimento…
Médicos são anjos, com mãos divinas, aos quais só temos de agradecer quando no
s livram de algum mal.
Saí da sala gelada; passado um bocado toda eu tremia.
Levaram-me de volta para o quarto.
Tudo parecia bem e eu sem dores. Pudera, ainda estava sob o efeito da anestesia. Apalpava as pernas e a barriga e nada sentia. Demorou imensas horas a passar o efeito. Nesse espaço de tempo, pensei muitas vezes nos paralíticos. Agora sabia o que sentiam… Só que a diferença era que a mim me passaria, e a eles não. Senti-me uma sortuda, pois há pessoas com problemas bem maiores que o meu. Conseguir andar, é um acto que fazemos com tanta naturalidade, que nem damos valor…
Tive um pós-operatório muito doloroso. E só pensava como é triste estar doente. Como é triste nem conseguirmos levantar-nos, nem fazer a nossa higiene diária…
Estar dependente dos outros, é muito triste. E o período que passei em recuperação, em que não conseguia fazer nada, serviu para começar a dar mais valor àquilo que conseguia fazer antes.
E hoje, sempre que posso, agradeço a Deus tudo ter-me corrido bem, e aos poucos poder recomeçar a fazer a minha vida normal. Agradeço o andar, o sentir, o tocar, o cheirar, o olhar, o ouvir… Agradeço as minhas faculdades físicas e mentais, e agradeço, principalmente, por estar viva…
Desejo a todos aqueles que estão doentes, uma rápida recuperação, e que tenham neste Natal, o maior presente que se pode ter: muita saúde…

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Parabéns Susana...

Há pessoas que conhecemos e nada nos “dizem”. Há outras que a sua aura emana tamanha simplicidade, humildade e autenticidade, que nos cativam no primeiro instante.
Foi o caso da Susana Falhas, que tive na Sexta-feira, o prazer de conhecer na FNAC, na apresentação do seu enorme sucesso.
Se há quem mereça ser homenageada, és tu Susana. Por te teres dedicado a uma causa tão nobre e tão bonita como esta de divulgares as nossas aldeias meio esquecidas pelo tempo.
Deve ter-te dado um trabalho enorme toda esta jornada, mas por outro lado, um enorme prazer, pois, tal como disseste, pudeste descobrir recantos e encantos que mesmo perto, passavas ao lado e desconhecias…
É o que acontece a muitos de nós, sem um guia a nosso lado para nos indicar o que ver e visitar, quando vamos a um lugar desconhecido. Agora com este livro tudo mudou! Temos mapas, História, indicações, conselhos, fotos; enfim, temos tudo para já não andarmos “perdidos”. Levar este livro connosco num passeio, é levarmos um guia a quem só falta falar.
E ser o quarto livro mais vendido em Almada, é apenas o começo.
Gostei muito da história que leram, do dia que partiram à procura de um tesouro. Um dia muito bem passado, e isso é o mais importante na vida: as memórias que deixamos a nossos filhos.
Gostei de saber que têm já um novo projecto do livro, para crianças. E como é importante incutir na mente daqueles que serão o nosso futuro, o gosto pelas valiosas aldeias que temos. O gosto e o poderem também eles descobrir os tesouros que temos, e que muita gente não sabe dar valor.
Gostei também da apresentação em vídeo, ao som da bonita e tradicional guitarra portuguesa.
Parabéns! Tudo correu na perfeição; vocês já parecem uns autênticos profissionais.
Enquanto assistia, muito atento, ao vídeo e às belíssimas imagens com que nos presentearam, meu filho, a certa altura perguntou:
- E Salvaterra, mãe? Porque não aparece Salvaterra? Também é uma aldeia histórica…
- Pois é, filho – respondi eu – mas por enquanto só foram classificadas como históricas estas 12 aldeias…
Salvaterra merecerá um dia destaque especial num outro livro sobre as aldeias históricas, mas ao mesmo tempo não classificadas como tal. Salvaterra e tantas outras aldeias que merecem ser divulgadas.
Um dia, não é Susana?
Um dia aparecerá um guia do que descobrir em Salvaterra, as suas festas, as tradições e a riquíssima História. Se não for a Susana, é o amigo João Celorico, que andava a pesquisar para tal…
O leitor fica sempre impaciente à espera do livro que sairá um dia, porém, esquece-se que tudo tem o seu tempo e que isto de produzir um livro é uma grande empresa.
No vosso caso, todo o trabalho que tiveram está agora a ter os seus frutos, e como deve ser compensador poder colhê-los.
O vosso primeiro projecto foi muito bem concebido, e desejo-vos toda a sorte e êxito na realização dos próximos.
Adorei conhecer-te Susana. A ti, teu marido e filhote. Tens uma família linda.
Tudo de bom para vocês, pois merecem.
Beijinhos, e espero que este realmente, tenha sido o primeiro de muitos encontros…

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O meu castelo preferido...

Acordei já tarde, sem ti a meu lado. Já tinhas saído para o trabalho.
(...)
Pensei: "não posso ficar aqui o dia inteiro à espera que regresse. Assim, as horas parecerão nunca mais ter fim."
Decidi levantar-me. Abri o postigo da janela e espreitei. Que linda paisagem. Parecia tirada de um postal. No meio do verde da natureza e de abundantes flores lilazes, avistava-se ao longe uma das muitas muralhas desse castelo medieval. Os turistas já tiravam fotos lá de cima, e eu aqui, a esta hora, ainda em pijama. Decidi juntar-me a eles, para não ficar em casa a pensar demais.
O tempo estava instável: tão depressa vinha a chuva, como brilhava o Sol.
Saí de casa. Passei primeiro pela Praça da Igreja Matriz de Santa Maria. É curioso que esta igreja já "teve" duas religiões diferentes, pois embora a tradição faça remontar a sua fundação ao período visigótico, foi transformada em mesquita no período muçulmano e novamente sagrada por D. Afonso Henriques, logo após a conquista da vila em 1148.
Subo as escadas junto ao Telheiro e vou dar ao pelourinho, lindamente esculpido numa coluna de pedra, que apresenta as marcas de uma argola de metal onde, provavelmente, os condenados seriam expostos para humilhação pública.
Contém também as Armas Reais e as armas pessoais da rainha D. Leonor de Lencastre (mulher de D. João II), onde se observa uma rede. Estas armas de D. Leonor foram, durante muito tempo, o brasão da Vila de Óbidos e representam as redes que recolheram o corpo, já sem vida, do Príncipe D. Afonso, único filho varão herdeiro de D. João II, morto por afogamento no rio Tejo, junto à cidade de Santarém.
O pelourinho encontra-se por cima do bonito Chafariz da Praça de Santa Maria.
Ou seja: por todo o lado há monumentos, arduamente esculpidos, por mãos hábeis do passado... E que belas obras de arte nos deixaram...
Por todo o lado turistas enchem a vila, procurando visitar todos os históricos recantos e encantos da mesma. Os vários dialectos escutados, misturam-se aos nossos ouvidos; até parece que estou na Torre de Babel, com tanta diversidade linguística espalhada pelas ruas.
Caminho só nesta "tua" lindíssima vila histórica, por estas pedras de calçada já lapidadas pelo tempo. Penso para comigo: ainda bem que trouxe ténis, pois deve ser mesmo a forma mais segura de andar por aqui.
Caíram algumas gotas de chuva, de nuvens passageiras apressadas, fazendo surgir mesmo por cima dos telhados um arco-íris colorido, que no céu desenhou um meio círculo. Não resisto a gravar este encanto para sempre, e lá vai mais uma foto.
Parece que tudo aqui tem magia...
Passo agora para fora da muralha do castelo, pelas águas cantantes e cristalinas de uma alegre cascata, onde um pato alisa suas penas com o bico, nem se importando com a minha presença.
Sento-me num banco e fico ali, sozinha, a olhar o horizonte que se estende por montes e vales verdejantes. Penso em ti, e se também tu estarás a pensar em mim.
Esta paisagem faz-me ficar melancólica, melhor será fazer-me novamente ao caminho, para não ficar aqui a pensar demais e a saudade a aumentar.
Passo por outra porta, e volto a entrar novamente no interior das muralhas. Ora se está fora, ora se está dentro do castelo.
A ancestral calçada está agora mais escorregadia que nunca.
No ar ficou o cheiro agradável do verde da natureza envolvente.
Penso na sorte imensa que tens por viver numa vila como esta, onde o encanto do passado se mistura com o presente. Nesta vila envolta por um castelo, que teimo em descobrir cada recanto, cada muralha, cada ameia... Vale bem o tributo de monumento nacional e uma das sete maravilhas de Portugal...
É engraçado pensar que neste castelo lindíssimo, encontrei um dia meu príncipe encantado.
Sinto-me quase, até eu, uma princesa, vivendo um sonho do qual não quero acordar. E só espero que meu príncipe, um dia, não vire sapo...
E então ao subir todas estas escadas que levam ao cimo da muralha, imagino como seria a vida no tempo da rainha D. Leonor, que chegou a residir neste castelo. Cá em cima, quase que dá vertigens olhar lá para baixo, pois há muitos caminhos estreitos, irregulares, sem protecção e onde sopra um vento forte. Com os vestidos rodados e rendados que usavam antigamente, decerto não viriam cá para cima, vou eu pensando, à medida que caminho mesmo encostada à ameia, não vá o vento levar esta "pena" pelo ar, lol... Com certeza o cimo das muralhas apenas pertencia aos vigias, sempre atentos aos inimigos...
Se este castelo falasse, tanto que teria para contar...
Ele foi originariamente edificado pelos árabes, no local que já tinha sido ocupado por lusitanos, romanos e visigodos, e no contexto da expansão do território português e reconquista cristã da Península Ibérica.
D. Afonso Henriques tomou este castelo por volta de 1148.
No reinado de D. Sancho I, foram executadas obras neste castelo, que resistiu aos ataques e se manteve fiel ao rei D. Sancho II, durante a crise que levaria à sua deposição e subida ao trono de D. Afonso III.
Uma particularidade deste castelo é que depois de ter sido entregue pelo rei D. Dinis, como dote, à Rainha Santa Isabel, viria a fazer parte do dote das rainhas seguintes, chegando a ser residência da rainha D. Leonor, esposa de D. João II.
D. Manuel I, é responsável por importantes melhoramentos no castelo e na vila, sendo dessa época a reconstrução dos Paços do Alcaide. O terramoto de 1755 causou muitos danos ao castelo, mas ainda viria a desempenhar a sua função durante as invasões francesas, contribuindo para a derrota do exército francês.
Este foi e continua a ser até hoje um importante e glorioso castelo, que mantém suas muralhas imponentes e nos dá tantas, e tão belas fotos...
Quem entre em Óbidos, parece entrar num portal do tempo da nossa História; parece entrar num local mágico que nos reporta ao passado glorioso que tivémos...
As suas ruas são estreitas e limpas, as casas mantêm a traça tradicional, caiadas de branco com barras ora azuis, ora amarelas e com a maior parte das varandas floridas e coloridas.
Muitas são as lojas dedicadas à famosa e tradicional ginjinha, que graças à influência do Festival Internacional de Chocolate, passou a ser servida em copos ou pequenas chávenas de chocolate.
O comércio da vila é também marcado pelas lojas de artesanato tradicional e contemporâneo, produtos regionais, bordados, mantas, doces e compotas, vinhos, entre muitos outros produtos...
Dizem que por altura do Festival medieval ("dizem" porque eu nunca cá vim nessa altura), Óbidos ganha ainda mais beleza e alegria, pois vivem-se ilustrações vivas do modo de viver no Passado.
Este é sem dúvida um lugar especial: Óbidos. Especial como vila, mas para mim, principalmente, especial porque vives cá.
Começa a cair a noite e nem dei pelo passar do tempo, pois por aqui vagueei sem destino, e me "perdi" com gosto.
Começo a sentir-me só na multidão de turistas e residentes. Meus olhos procuram-te na multidão, mesmo sabendo que estás a trabalhar. Deve ser da vontade enorme que tenho em estar contigo. Começo a sentir um vazio. Falta-me algo... Faltas-me tu. A minha companhia, o meu amor, a minha vida... Mas alegro-me ao saber que logo, logo, voltarás para mim e de novo, mas agora juntos, nestas muralhas nos "perderemos"...
Cristina R.
Nota: esta é a minha contribuição para o passatempo do blogue http//aldeiadaminhavida.blogspot.com, sobre "o meu castelo preferido"...
Aconselho-vos a visitarem este blogue, e a descobrir quantos castelos maravilhosos temos por este país espalhados...
O castelo de Óbidos é sem dúvida o meu castelo preferido. Seria impossível falar do castelo, e não falar da vila que dentro dele nasceu...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

“Chegou ao seu destino…” Parte III

Já com as malas feitas, fomos a Ceclavin, pois o gasóleo de “nuestros hermanos” é bem mais em conta. Nota-se logo a diferença das estradas quando se passa a fronteira.
Seguimos então para o Ladoeiro, onde decorria o último dia do festival da melancia.
Exposição e venda de melancias, doces de melancia, gelado de melancia, sumos naturais de melancia, caipirinha de melancia; é a verdadeira festa da melancia...
Organizado pela Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, o festival da melancia destina-se a promover um dos melhores produtos agrícolas da região.
Os agricultores da região dizem que não há melancia como a do Ladoeiro, cujo segredo do sucesso assenta “na boa terra, boa água e estrume”.
A sementeira começa em Abril e a chegada da festa de S. João é sinal de que está pronta a consumir.
Nas bancas havia duas variedades de doce de melancia: uma de cor vermelha e outra de cor branca, que despertava mais curiosidade. A de cor vermelha é confeccionada com a polpa, sendo um doce tradicional, com açúcar e pau de canela. A de cor branca é feita da parte branca da casca, e leva mais condimentos porque não tem doce.
A caipirinha de melancia é feita com o sumo, vodka, limão e açúcar amarelo.
O gelado de melancia era vendido em duas variantes: uma com miolo de melancia triturada e outra com adição de leite condensado e ripas de chocolate.
Para além de melancias havia outros expositores com produtos tradicionais e regionais, desde o mel, aos queijos e enchidos, os adufes, as bonecas feitas de pano, os têxteis, etc… Tudo confeccionado pelas mãos hábeis dos artesãos locais…
Tudo isto animado por espectáculos de música e jogos tradicionais.
O Tiago teve oportunidade de assistir ao vivo, ao seu primeiro leilão: “quem dá mais, quem dá mais por este belo leitãozinho?” Entre alguns grunhidos, alguém o levou por €60,00.
“E estes 3 casais de marrecos, acabadinhos de vir de lua-de-mel, quem dá mais, quem dá mais?” Também se venderam por €55,00.
O início do concurso das melancias esculpidas estava marcado para as 18 horas. Ainda esperámos muito tempo, mas como fazia tanto calor, adiaram a exposição para as 19:30h e mantiveram as melancias bem guardadas em arcas frigoríficas.
Como a essa hora já se fazia muito tarde para nós, que ainda tínhamos de percorrer tantos kms até Lisboa, com muita pena, metemo-nos ao caminho, com a esperança de quem sabe para o ano?
Pelo que acabámos por não saber qual foi a melancia mais pesada e que escultura ganhou…Mas para o ano haverá mais, se Deus quiser…


"Chegou ao seu destino…” Parte II

Apesar dos contratempos da viagem, este foi sem dúvida um fim-de-semana especial.
Perguntei várias vezes à Ana se gostou da nossa vila e ela disse que sim.
Optámos por ficar Sábado em Salvaterra e Domingo, já de partida para Lisboa, passar pelo Ladoeiro. Ainda iríamos a tempo de ver o concurso das melancias esculpidas (ou pelo menos, foi o que pensámos)…
Mesmo assim, penso que correu tudo bem.
Só houve uma coisa que nos estragava sempre os planos: o calor insuportável. Nem uma brisa corria. Só estávamos bem debaixo da mangueira ou do chuveiro no quintal. O Tiago então, de mangueira sempre na mão, deve ter tomado no Sábado, para aí uns 10 banhos, lol…
Ainda assim, mostrámos à Ana o máximo que pudemos de Salvaterra.
Levámo-la a ver o rio Erges, ou melhor: foi ela quem nos levou…
Não podíamos deixar de lhe mostrar o pelourinho do século XVI, no largo da praça, a Torre do Relógio, e a antiga Casa da Câmara, marco de que Salvaterra foi sede de Concelho até 1855…
Percorremos algumas ruas da velhinha Salvaterra, detendo-nos nos pormenores de certas casas.
“Estudámos” o monumento de homenagem aos antigos combatentes em ultramar.
Decifrámos a numeração romana inscrita no cruzeiro.
Visitámos as antigas escolas primárias, espaço onde outrora ecoavam risos alegres de crianças; hoje em completo silêncio…
E no café Capelo, soubemos que decorria nessa dia um passeio nocturno intitulado: “no trilho das estrelas e do contrabando”. Ainda fomos ao adro da igreja ver se havia possibilidade de também irmos. Mas já tinham tudo preenchido com 200 participantes já inscritos.
Pena que não tivéssemos sabido antes, e teríamos feito a inscrição a tempo. Mas depois também comecei a pensar: será que a Ana aguentaria tanto km a pé de Salvaterra à Zarza? Ela dizia que sim, que aguentava. Mas o que é certo, é que ela não está habituada a fazer caminhadas com tanto calor, ainda que a partida fosse só às 19h. Ela nem sequer gosta de usar chapéu. As poucas vezes que usou, quase tive de a obrigar…
Já se pôs cá muita gente doente, por causa do Sol, e não iria arriscar.
Mesmo assim, o rapaz que estava a organizar tudo, deu-nos um folheto com a informação do site onde pudemos estar actualizadas quanto aos eventos que vão ocorrer, e aí também, podemos fazer atempadamente a inscrição: www.turismodenatureza.com.
Faço aqui publicidade, porque são passeios muito interessantes, e com guias, o que é sempre melhor, do que fazer os mesmos percursos sozinhos.
E porque andar a pé é bom, faz bem à saúde e recomenda-se…
Pois não fomos ao passeio que estavam a organizar, mas acabámos por fazer o nosso próprio passeio, e fomos cansar a Ana na “rota dos abutres”.
Colocámos bastante protector solar, obrigámos a Ana a pôr o chapéu, e pusemo-nos ao caminho.
O nosso ponto de partida foi junto à Igreja Matriz, no adro, agora com o ninho vazio da cegonha, que já deve ter partido com os filhotes nascidos na Primavera…
Ao sair da povoação, fomos mostrando à Ana as furdas, que muita gente pensa ter servido só de abrigo para os porcos, mas na realidade são antigos castros: fortificações onde os audazes lusitanos se aquartelariam para, depois, lançar os seus ataques contra os invasores romanos.
Percorremos a calçada romana até à Caseta, o antigo posto da guarda fiscal. Aqui nos sentámos a descansar, e contemplámos a deslumbrante paisagem. Hoje, a Caseta tem gravada nas suas paredes, imensos nomes de quem por aqui passa e mensagens amorosas. Mas tem também gravada na mente dos sobreviventes desta terra, muitas das histórias de contrabando, que testemunhou… Tempos difíceis de quem tudo fazia para sobreviver e alimentar muitas bocas…
Do lado de lá do rio já se avista o Castelo de Peñafiel. Ali já é território da Extremadura espanhola. Com um pouco de sorte, podem-se ver os seus habitantes actuais, os grifos, ou abutres, pairando no ar. É nessa escarpa que nidificam.
E quem tiver paciência para esperar, também pode, um pouco mais acima da Caseta, meter-se dentro do observatório de aves, e aguardar o voo de quem vigia atentamente este território: os grifos, os abutres negros, os abutres do Egipto, a águia de Bonelli, a águia cobreira, a cegonha negra, o guarda rios, etc… Aconselham-se binóculos…
Da Caseta continuámos a descer, rumo à Fonte da Ribeira.
Quem ia à frente era o Tiago, que já conhece bem o caminho. Às vezes afastava-se e deixávamos de o ver. Mas era a pressa dele em chegar.
Numa dessas vezes, voltou a correr aflito para cima a dizer-nos: “já não podemos continuar… ali à frente está uma coisa perigosa, que eu nunca tinha visto, e já não podemos passar…”
A primeira coisa que me veio à cabeça foi um animal selvagem, e pensei logo num javali. Ainda fiquei a matutar, que faria se o bicho viesse atrás de nós. Por acaso não faço ideia de como proceder face a um javali. E que os há lá na terra, há…
Ou podia ser uma cobra…
Mas o Tiago não conseguia explicar o que era. Perguntei-lhe várias vezes se era um bicho, e dizia sempre que não. Mas não sabia o que era. Ele nem conseguia falar de tão assustado e ofegante que estava.
Que raio? Então já percorremos este caminho todo, e agora só por causa de algo, que nem sabemos o que é, não vamos poder chegar às gargantas do rio? O local que queria mesmo mostrar à Ana…
Não podia ser! Se não era bicho, então não nos devia fazer mal.
Fui à frente, com muito cuidado, e ao passar junto a um sobreiro de tronco grosso e alto, ouvi um zumbido enorme, de meter respeito. Também nunca tinha passado por uma colmeia habitada por um ruidoso enxame de abelhas. Confesso que também tive receio, mas pensei: se passarmos caladinhos, sem sequer olhar para cima, e rapidamente, talvez elas percebam que não estamos ali para lhes fazer mal, que até as respeitamos e só queremos passar pelo único caminho existente para a Fonte…
E quando vi que passei e nada aconteceu, fiz-lhes sinal para prosseguirem também eles calados. E quando nos voltámos a juntar, sem que nada acontecesse, confesso que até tinha perdido as forças nas pernas, lol…
Mas não fui só eu, porque até ao “corajoso” do Tiago faltaram, lol…
Ao chegar à Fonte da Ribeira pudemos recuperar as forças e refrescar-nos com a água fresquinha que ainda ali corre.
Descemos então, mais um pouco, e vamos dar às gargantas do rio Erges, com fragas admiráveis e seculares. “Tudo isto já faz parte do Geo Park do Tejo Internacional”, explico à Ana. Uma paisagem maravilhosa, onde nossos olhos se perdem… Um local que espero se mantenha sempre assim: puro e inalterado.
Claro que a paisagem agora é completamente diferente, pois no fim do Inverno e Primavera, o rio vai muito mais cheio e é mais bonito de se ver, pois forma cascatas onde a água corre fortemente.
Mas mesmo com pouca água, ainda continua digno de uma visita.
Para cima, não fomos pelo mesmo caminho, pois queria mostrar à Ana, uma frase inscrita de 1895, num local de muita paz e repouso dos que já partiram, uma frase em que ninguém pensa, no campo da “egualdade”.

“Ora aqui está uma grande verdade!” – dizia ela…


Para baixo, como se costuma dizer: “todos os santos ajudam”, agora o caminho para cima, de regresso a casa, é que foi mais penoso.
Chegámos a casa muito sujas, pois o pó colava-se ao protector solar; cheias de calor, cansadas, mas rejuvenescidas…
No Domingo não fomos a tempo de ver o interior da igreja matriz, pois quando abre, à hora da missa, estávamos nós a dormir…
Mesmo assim, antes de seguirmos para o Ladoeiro, ainda passámos no Chafariz da Devesa, ao pé da capela de Nossa Senhora da Consolação. Este chafariz, construído em meados do século XVIII, abastecia a povoação de água potável. Diz-se na placa informativa que ali colocaram, que servia também para as mulheres lavarem a roupa. O que é certo, é que não me lembro nunca de minha avó ter lavado ali a roupa, mas sim dos animais irem lá saciar a sua sede. Lembro-me bem, era da roupa lavada, em pedras bem escolhidas, no rio Erges. Era um dia de festa para mim: poder passar o tempo todo dentro de água…
Algumas coisas ficaram por mostrar à Ana, mas espero ter outras oportunidades, se possível com o tempo mais fresquinho, que é quando se anda melhor…