sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O meu castelo preferido...

Acordei já tarde, sem ti a meu lado. Já tinhas saído para o trabalho.
(...)
Pensei: "não posso ficar aqui o dia inteiro à espera que regresse. Assim, as horas parecerão nunca mais ter fim."
Decidi levantar-me. Abri o postigo da janela e espreitei. Que linda paisagem. Parecia tirada de um postal. No meio do verde da natureza e de abundantes flores lilazes, avistava-se ao longe uma das muitas muralhas desse castelo medieval. Os turistas já tiravam fotos lá de cima, e eu aqui, a esta hora, ainda em pijama. Decidi juntar-me a eles, para não ficar em casa a pensar demais.
O tempo estava instável: tão depressa vinha a chuva, como brilhava o Sol.
Saí de casa. Passei primeiro pela Praça da Igreja Matriz de Santa Maria. É curioso que esta igreja já "teve" duas religiões diferentes, pois embora a tradição faça remontar a sua fundação ao período visigótico, foi transformada em mesquita no período muçulmano e novamente sagrada por D. Afonso Henriques, logo após a conquista da vila em 1148.
Subo as escadas junto ao Telheiro e vou dar ao pelourinho, lindamente esculpido numa coluna de pedra, que apresenta as marcas de uma argola de metal onde, provavelmente, os condenados seriam expostos para humilhação pública.
Contém também as Armas Reais e as armas pessoais da rainha D. Leonor de Lencastre (mulher de D. João II), onde se observa uma rede. Estas armas de D. Leonor foram, durante muito tempo, o brasão da Vila de Óbidos e representam as redes que recolheram o corpo, já sem vida, do Príncipe D. Afonso, único filho varão herdeiro de D. João II, morto por afogamento no rio Tejo, junto à cidade de Santarém.
O pelourinho encontra-se por cima do bonito Chafariz da Praça de Santa Maria.
Ou seja: por todo o lado há monumentos, arduamente esculpidos, por mãos hábeis do passado... E que belas obras de arte nos deixaram...
Por todo o lado turistas enchem a vila, procurando visitar todos os históricos recantos e encantos da mesma. Os vários dialectos escutados, misturam-se aos nossos ouvidos; até parece que estou na Torre de Babel, com tanta diversidade linguística espalhada pelas ruas.
Caminho só nesta "tua" lindíssima vila histórica, por estas pedras de calçada já lapidadas pelo tempo. Penso para comigo: ainda bem que trouxe ténis, pois deve ser mesmo a forma mais segura de andar por aqui.
Caíram algumas gotas de chuva, de nuvens passageiras apressadas, fazendo surgir mesmo por cima dos telhados um arco-íris colorido, que no céu desenhou um meio círculo. Não resisto a gravar este encanto para sempre, e lá vai mais uma foto.
Parece que tudo aqui tem magia...
Passo agora para fora da muralha do castelo, pelas águas cantantes e cristalinas de uma alegre cascata, onde um pato alisa suas penas com o bico, nem se importando com a minha presença.
Sento-me num banco e fico ali, sozinha, a olhar o horizonte que se estende por montes e vales verdejantes. Penso em ti, e se também tu estarás a pensar em mim.
Esta paisagem faz-me ficar melancólica, melhor será fazer-me novamente ao caminho, para não ficar aqui a pensar demais e a saudade a aumentar.
Passo por outra porta, e volto a entrar novamente no interior das muralhas. Ora se está fora, ora se está dentro do castelo.
A ancestral calçada está agora mais escorregadia que nunca.
No ar ficou o cheiro agradável do verde da natureza envolvente.
Penso na sorte imensa que tens por viver numa vila como esta, onde o encanto do passado se mistura com o presente. Nesta vila envolta por um castelo, que teimo em descobrir cada recanto, cada muralha, cada ameia... Vale bem o tributo de monumento nacional e uma das sete maravilhas de Portugal...
É engraçado pensar que neste castelo lindíssimo, encontrei um dia meu príncipe encantado.
Sinto-me quase, até eu, uma princesa, vivendo um sonho do qual não quero acordar. E só espero que meu príncipe, um dia, não vire sapo...
E então ao subir todas estas escadas que levam ao cimo da muralha, imagino como seria a vida no tempo da rainha D. Leonor, que chegou a residir neste castelo. Cá em cima, quase que dá vertigens olhar lá para baixo, pois há muitos caminhos estreitos, irregulares, sem protecção e onde sopra um vento forte. Com os vestidos rodados e rendados que usavam antigamente, decerto não viriam cá para cima, vou eu pensando, à medida que caminho mesmo encostada à ameia, não vá o vento levar esta "pena" pelo ar, lol... Com certeza o cimo das muralhas apenas pertencia aos vigias, sempre atentos aos inimigos...
Se este castelo falasse, tanto que teria para contar...
Ele foi originariamente edificado pelos árabes, no local que já tinha sido ocupado por lusitanos, romanos e visigodos, e no contexto da expansão do território português e reconquista cristã da Península Ibérica.
D. Afonso Henriques tomou este castelo por volta de 1148.
No reinado de D. Sancho I, foram executadas obras neste castelo, que resistiu aos ataques e se manteve fiel ao rei D. Sancho II, durante a crise que levaria à sua deposição e subida ao trono de D. Afonso III.
Uma particularidade deste castelo é que depois de ter sido entregue pelo rei D. Dinis, como dote, à Rainha Santa Isabel, viria a fazer parte do dote das rainhas seguintes, chegando a ser residência da rainha D. Leonor, esposa de D. João II.
D. Manuel I, é responsável por importantes melhoramentos no castelo e na vila, sendo dessa época a reconstrução dos Paços do Alcaide. O terramoto de 1755 causou muitos danos ao castelo, mas ainda viria a desempenhar a sua função durante as invasões francesas, contribuindo para a derrota do exército francês.
Este foi e continua a ser até hoje um importante e glorioso castelo, que mantém suas muralhas imponentes e nos dá tantas, e tão belas fotos...
Quem entre em Óbidos, parece entrar num portal do tempo da nossa História; parece entrar num local mágico que nos reporta ao passado glorioso que tivémos...
As suas ruas são estreitas e limpas, as casas mantêm a traça tradicional, caiadas de branco com barras ora azuis, ora amarelas e com a maior parte das varandas floridas e coloridas.
Muitas são as lojas dedicadas à famosa e tradicional ginjinha, que graças à influência do Festival Internacional de Chocolate, passou a ser servida em copos ou pequenas chávenas de chocolate.
O comércio da vila é também marcado pelas lojas de artesanato tradicional e contemporâneo, produtos regionais, bordados, mantas, doces e compotas, vinhos, entre muitos outros produtos...
Dizem que por altura do Festival medieval ("dizem" porque eu nunca cá vim nessa altura), Óbidos ganha ainda mais beleza e alegria, pois vivem-se ilustrações vivas do modo de viver no Passado.
Este é sem dúvida um lugar especial: Óbidos. Especial como vila, mas para mim, principalmente, especial porque vives cá.
Começa a cair a noite e nem dei pelo passar do tempo, pois por aqui vagueei sem destino, e me "perdi" com gosto.
Começo a sentir-me só na multidão de turistas e residentes. Meus olhos procuram-te na multidão, mesmo sabendo que estás a trabalhar. Deve ser da vontade enorme que tenho em estar contigo. Começo a sentir um vazio. Falta-me algo... Faltas-me tu. A minha companhia, o meu amor, a minha vida... Mas alegro-me ao saber que logo, logo, voltarás para mim e de novo, mas agora juntos, nestas muralhas nos "perderemos"...
Cristina R.
Nota: esta é a minha contribuição para o passatempo do blogue http//aldeiadaminhavida.blogspot.com, sobre "o meu castelo preferido"...
Aconselho-vos a visitarem este blogue, e a descobrir quantos castelos maravilhosos temos por este país espalhados...
O castelo de Óbidos é sem dúvida o meu castelo preferido. Seria impossível falar do castelo, e não falar da vila que dentro dele nasceu...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

“Chegou ao seu destino…” Parte III

Já com as malas feitas, fomos a Ceclavin, pois o gasóleo de “nuestros hermanos” é bem mais em conta. Nota-se logo a diferença das estradas quando se passa a fronteira.
Seguimos então para o Ladoeiro, onde decorria o último dia do festival da melancia.
Exposição e venda de melancias, doces de melancia, gelado de melancia, sumos naturais de melancia, caipirinha de melancia; é a verdadeira festa da melancia...
Organizado pela Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, o festival da melancia destina-se a promover um dos melhores produtos agrícolas da região.
Os agricultores da região dizem que não há melancia como a do Ladoeiro, cujo segredo do sucesso assenta “na boa terra, boa água e estrume”.
A sementeira começa em Abril e a chegada da festa de S. João é sinal de que está pronta a consumir.
Nas bancas havia duas variedades de doce de melancia: uma de cor vermelha e outra de cor branca, que despertava mais curiosidade. A de cor vermelha é confeccionada com a polpa, sendo um doce tradicional, com açúcar e pau de canela. A de cor branca é feita da parte branca da casca, e leva mais condimentos porque não tem doce.
A caipirinha de melancia é feita com o sumo, vodka, limão e açúcar amarelo.
O gelado de melancia era vendido em duas variantes: uma com miolo de melancia triturada e outra com adição de leite condensado e ripas de chocolate.
Para além de melancias havia outros expositores com produtos tradicionais e regionais, desde o mel, aos queijos e enchidos, os adufes, as bonecas feitas de pano, os têxteis, etc… Tudo confeccionado pelas mãos hábeis dos artesãos locais…
Tudo isto animado por espectáculos de música e jogos tradicionais.
O Tiago teve oportunidade de assistir ao vivo, ao seu primeiro leilão: “quem dá mais, quem dá mais por este belo leitãozinho?” Entre alguns grunhidos, alguém o levou por €60,00.
“E estes 3 casais de marrecos, acabadinhos de vir de lua-de-mel, quem dá mais, quem dá mais?” Também se venderam por €55,00.
O início do concurso das melancias esculpidas estava marcado para as 18 horas. Ainda esperámos muito tempo, mas como fazia tanto calor, adiaram a exposição para as 19:30h e mantiveram as melancias bem guardadas em arcas frigoríficas.
Como a essa hora já se fazia muito tarde para nós, que ainda tínhamos de percorrer tantos kms até Lisboa, com muita pena, metemo-nos ao caminho, com a esperança de quem sabe para o ano?
Pelo que acabámos por não saber qual foi a melancia mais pesada e que escultura ganhou…Mas para o ano haverá mais, se Deus quiser…


"Chegou ao seu destino…” Parte II

Apesar dos contratempos da viagem, este foi sem dúvida um fim-de-semana especial.
Perguntei várias vezes à Ana se gostou da nossa vila e ela disse que sim.
Optámos por ficar Sábado em Salvaterra e Domingo, já de partida para Lisboa, passar pelo Ladoeiro. Ainda iríamos a tempo de ver o concurso das melancias esculpidas (ou pelo menos, foi o que pensámos)…
Mesmo assim, penso que correu tudo bem.
Só houve uma coisa que nos estragava sempre os planos: o calor insuportável. Nem uma brisa corria. Só estávamos bem debaixo da mangueira ou do chuveiro no quintal. O Tiago então, de mangueira sempre na mão, deve ter tomado no Sábado, para aí uns 10 banhos, lol…
Ainda assim, mostrámos à Ana o máximo que pudemos de Salvaterra.
Levámo-la a ver o rio Erges, ou melhor: foi ela quem nos levou…
Não podíamos deixar de lhe mostrar o pelourinho do século XVI, no largo da praça, a Torre do Relógio, e a antiga Casa da Câmara, marco de que Salvaterra foi sede de Concelho até 1855…
Percorremos algumas ruas da velhinha Salvaterra, detendo-nos nos pormenores de certas casas.
“Estudámos” o monumento de homenagem aos antigos combatentes em ultramar.
Decifrámos a numeração romana inscrita no cruzeiro.
Visitámos as antigas escolas primárias, espaço onde outrora ecoavam risos alegres de crianças; hoje em completo silêncio…
E no café Capelo, soubemos que decorria nessa dia um passeio nocturno intitulado: “no trilho das estrelas e do contrabando”. Ainda fomos ao adro da igreja ver se havia possibilidade de também irmos. Mas já tinham tudo preenchido com 200 participantes já inscritos.
Pena que não tivéssemos sabido antes, e teríamos feito a inscrição a tempo. Mas depois também comecei a pensar: será que a Ana aguentaria tanto km a pé de Salvaterra à Zarza? Ela dizia que sim, que aguentava. Mas o que é certo, é que ela não está habituada a fazer caminhadas com tanto calor, ainda que a partida fosse só às 19h. Ela nem sequer gosta de usar chapéu. As poucas vezes que usou, quase tive de a obrigar…
Já se pôs cá muita gente doente, por causa do Sol, e não iria arriscar.
Mesmo assim, o rapaz que estava a organizar tudo, deu-nos um folheto com a informação do site onde pudemos estar actualizadas quanto aos eventos que vão ocorrer, e aí também, podemos fazer atempadamente a inscrição: www.turismodenatureza.com.
Faço aqui publicidade, porque são passeios muito interessantes, e com guias, o que é sempre melhor, do que fazer os mesmos percursos sozinhos.
E porque andar a pé é bom, faz bem à saúde e recomenda-se…
Pois não fomos ao passeio que estavam a organizar, mas acabámos por fazer o nosso próprio passeio, e fomos cansar a Ana na “rota dos abutres”.
Colocámos bastante protector solar, obrigámos a Ana a pôr o chapéu, e pusemo-nos ao caminho.
O nosso ponto de partida foi junto à Igreja Matriz, no adro, agora com o ninho vazio da cegonha, que já deve ter partido com os filhotes nascidos na Primavera…
Ao sair da povoação, fomos mostrando à Ana as furdas, que muita gente pensa ter servido só de abrigo para os porcos, mas na realidade são antigos castros: fortificações onde os audazes lusitanos se aquartelariam para, depois, lançar os seus ataques contra os invasores romanos.
Percorremos a calçada romana até à Caseta, o antigo posto da guarda fiscal. Aqui nos sentámos a descansar, e contemplámos a deslumbrante paisagem. Hoje, a Caseta tem gravada nas suas paredes, imensos nomes de quem por aqui passa e mensagens amorosas. Mas tem também gravada na mente dos sobreviventes desta terra, muitas das histórias de contrabando, que testemunhou… Tempos difíceis de quem tudo fazia para sobreviver e alimentar muitas bocas…
Do lado de lá do rio já se avista o Castelo de Peñafiel. Ali já é território da Extremadura espanhola. Com um pouco de sorte, podem-se ver os seus habitantes actuais, os grifos, ou abutres, pairando no ar. É nessa escarpa que nidificam.
E quem tiver paciência para esperar, também pode, um pouco mais acima da Caseta, meter-se dentro do observatório de aves, e aguardar o voo de quem vigia atentamente este território: os grifos, os abutres negros, os abutres do Egipto, a águia de Bonelli, a águia cobreira, a cegonha negra, o guarda rios, etc… Aconselham-se binóculos…
Da Caseta continuámos a descer, rumo à Fonte da Ribeira.
Quem ia à frente era o Tiago, que já conhece bem o caminho. Às vezes afastava-se e deixávamos de o ver. Mas era a pressa dele em chegar.
Numa dessas vezes, voltou a correr aflito para cima a dizer-nos: “já não podemos continuar… ali à frente está uma coisa perigosa, que eu nunca tinha visto, e já não podemos passar…”
A primeira coisa que me veio à cabeça foi um animal selvagem, e pensei logo num javali. Ainda fiquei a matutar, que faria se o bicho viesse atrás de nós. Por acaso não faço ideia de como proceder face a um javali. E que os há lá na terra, há…
Ou podia ser uma cobra…
Mas o Tiago não conseguia explicar o que era. Perguntei-lhe várias vezes se era um bicho, e dizia sempre que não. Mas não sabia o que era. Ele nem conseguia falar de tão assustado e ofegante que estava.
Que raio? Então já percorremos este caminho todo, e agora só por causa de algo, que nem sabemos o que é, não vamos poder chegar às gargantas do rio? O local que queria mesmo mostrar à Ana…
Não podia ser! Se não era bicho, então não nos devia fazer mal.
Fui à frente, com muito cuidado, e ao passar junto a um sobreiro de tronco grosso e alto, ouvi um zumbido enorme, de meter respeito. Também nunca tinha passado por uma colmeia habitada por um ruidoso enxame de abelhas. Confesso que também tive receio, mas pensei: se passarmos caladinhos, sem sequer olhar para cima, e rapidamente, talvez elas percebam que não estamos ali para lhes fazer mal, que até as respeitamos e só queremos passar pelo único caminho existente para a Fonte…
E quando vi que passei e nada aconteceu, fiz-lhes sinal para prosseguirem também eles calados. E quando nos voltámos a juntar, sem que nada acontecesse, confesso que até tinha perdido as forças nas pernas, lol…
Mas não fui só eu, porque até ao “corajoso” do Tiago faltaram, lol…
Ao chegar à Fonte da Ribeira pudemos recuperar as forças e refrescar-nos com a água fresquinha que ainda ali corre.
Descemos então, mais um pouco, e vamos dar às gargantas do rio Erges, com fragas admiráveis e seculares. “Tudo isto já faz parte do Geo Park do Tejo Internacional”, explico à Ana. Uma paisagem maravilhosa, onde nossos olhos se perdem… Um local que espero se mantenha sempre assim: puro e inalterado.
Claro que a paisagem agora é completamente diferente, pois no fim do Inverno e Primavera, o rio vai muito mais cheio e é mais bonito de se ver, pois forma cascatas onde a água corre fortemente.
Mas mesmo com pouca água, ainda continua digno de uma visita.
Para cima, não fomos pelo mesmo caminho, pois queria mostrar à Ana, uma frase inscrita de 1895, num local de muita paz e repouso dos que já partiram, uma frase em que ninguém pensa, no campo da “egualdade”.

“Ora aqui está uma grande verdade!” – dizia ela…


Para baixo, como se costuma dizer: “todos os santos ajudam”, agora o caminho para cima, de regresso a casa, é que foi mais penoso.
Chegámos a casa muito sujas, pois o pó colava-se ao protector solar; cheias de calor, cansadas, mas rejuvenescidas…
No Domingo não fomos a tempo de ver o interior da igreja matriz, pois quando abre, à hora da missa, estávamos nós a dormir…
Mesmo assim, antes de seguirmos para o Ladoeiro, ainda passámos no Chafariz da Devesa, ao pé da capela de Nossa Senhora da Consolação. Este chafariz, construído em meados do século XVIII, abastecia a povoação de água potável. Diz-se na placa informativa que ali colocaram, que servia também para as mulheres lavarem a roupa. O que é certo, é que não me lembro nunca de minha avó ter lavado ali a roupa, mas sim dos animais irem lá saciar a sua sede. Lembro-me bem, era da roupa lavada, em pedras bem escolhidas, no rio Erges. Era um dia de festa para mim: poder passar o tempo todo dentro de água…
Algumas coisas ficaram por mostrar à Ana, mas espero ter outras oportunidades, se possível com o tempo mais fresquinho, que é quando se anda melhor…

“Chegou ao seu destino…” Parte I

“Chegou ao seu destino…” – disse a voz masculina, assim que se ligou o GPS, ainda estávamos à porta de casa… Agora pensando melhor, este foi um sinal para nem o tivéssemos ligado…
Mas a curiosidade do Tiago pelo aparelho, fez com que lá marcássemos o destino: Salvaterra do Extremo. Só que tínhamos duas opções: a N240 ou a N332. Como marcámos a opção errada, aconteceu que logo ao chegar a Castelo Branco já o GPS dizia para sairmos na 1ª saída, em Castelo Branco Industrial. Como não fizemos caso e seguimos em frente, disse-nos para sairmos na 2ª, em Hospital. Como também não fizemos caso, mais à frente, numa rotunda, em que sei que costumo sair na 2ª, o GPS disse-nos para sair na 1ª. A Ana só me dizia assim: “oh, Cristina, se calhar é melhor fazermos o que ele diz…” E eu, que já vinha baralhada, a pensar porque raio o GPS nos foi dizendo para sair em todas as saídas por que passámos, acabei por dizer-lhe, “está bem”.
E a Ana virou novamente para a A23.
Quando chegámos a Penamacor, disse-lhe: mas nós não costumamos passar aqui.
Aí já o GPS dizia: “assim que puder, faça inversão de marcha”.
Que vergonha, pensava eu… Como pude deixar que a Ana virasse onde o GPS dizia??
Quando chegámos a uma rotunda, encostámos um bocadinho à direita e perguntámos a um carro que nos ia a passar, o caminho para Salvaterra. E os moços, nem sequer sabiam onde ficava, mas ainda nos disseram: nós vamos para Alcains, se quiserem podem seguir-nos e daí se calhar já vão para Salvaterra.
Quando passam então à frente, fartámo-nos de rir as duas, pois o carro tinha matrícula francesa…
Oh, vergonha das vergonhas, eu que já lá fui tantas vezes, ter-me enganado assim, e agora íamos atrás de uns franceses…
Mas também não andaram muito, pois logo à frente havia uma brigada da PSP a mandá-los parar…
Oh que alegria a nossa, àquela hora tardia da noite, ver polícias a quem pudéssemos pedir informações. Os franceses tiveram de parar e nós que queríamos parar também, só para pedir informações, o polícia fazia-nos sinal para que continuássemos. Mas desrespeitámos a lei e parámos mesmo, pois estávamos completamente perdidas.
Então contámos-lhe a nossa aventura e como chegaríamos agora ao nosso destino… Ele retorceu o bigode, como que a pensar: como é que tendo GPS e tudo, estas mulheres vieram aqui parar, lol…
Então sugeriu-nos algo, que nos espantou às duas: “ali mais à frente, se aproveitarem bem a curva da estrada, dá para virarem para trás…”
Ele estava a sugerir que assim que entrássemos na auto-estrada fizéssemos inversão de marcha e passássemos traços contínuos e tudo…
Realmente dava para fazer isso, na escuridão da noite, viam-se bem os faróis dos carros, se algum viesse de frente, mas cometer uma infracção daquelas? E ainda por cima sugerida por um policia?
Nã! A Ana desconfiou que andassem à caça da multa, e acabou por não o fazer.
Ficámos sem saber se realmente o policia andava à caça da multa ou se estaria a ser amigo, pois ao seguir em frente acabámos por “visitar” Escalos de Cima, Oledo, Idanha-a-Nova, etc…
Enfim, uma grande volta desnecessária…
E que alegria, quando em pleno breu, avistámos no cimo do monte, Salvaterra iluminada.
Aqui já o GPS vinha calado, pois logo na Zebreira disse: “chegou ao seu destino…” lol…
E o nosso destino era mesmo mostrar Salvaterra do Extremo à Ana, que nunca lá tinha ido, e passarmos no festival da melancia do Ladoeiro. Saímos de casa Sexta-feira ao fim da tarde, e acabámos por chegar Sábado às tantas da manhã… E mesmo àquela hora o termómetro marcava 39 graus. Estava um calor insuportável. Depois foi arejar a casa, limpar a bicharada do chão, que mesmo com a casa fechada, eles conseguem sempre entrar, e deitarmo-nos, exaustas da longaaaaaaaa viagem…

terça-feira, 22 de junho de 2010

Quando comecei este blog, foi com o intuito de homenagear meus avós e a sua aldeia; deixar a meu filho, memórias do passado, de tempos em que a vida era bem diferente, e ele nem faz ideia do quanto.
Entretanto comecei a pensar: como ninguém dura para sempre, um dia será ele a recordar a vida que eu lhe dei. As memórias que lhe deixei; enfim, todos os momentos passados.
Claro que espero que esse dia venha muitooooo longe. Mas até lá, vou aproveitando a dádiva de estar viva, e porque não, ir-lhe já deixando testemunhos dos sítios por onde passámos e daquilo que vivemos. É também uma maneira de divulgar outros locais e eventos que merecem ser divulgados.
Pois, por isso mesmo, vou hoje deixar aqui o testemunho de um evento que ocorreu Sábado passado, no Solar dos Zagallos, na Sobreda:

Houve festa no Solar:

Este é o décimo ano que esta festa se realiza, e eu nunca lá tinha ido. Fui este ano pela primeira vez e adorei.
Peguei no Tiago, mandei mensagem à Ana, e lá nos encontrámos os três.
Uma vez por ano, o Solar proporciona ao público um dia inesquecível, pleno de actividades, ateliers e workshops, provas de gastronomia típica, em pleno piquenique, concertos e outros momentos musicais, exposições e recriações de cenas de outros tempos, tendinhas de venda e divulgação de produtos artesanais, etc…
Tudo isto decorre numa viagem ao século XIX, época de damas e cavalheiros nobres, num pequeno palacete e jardins românticos.
Assim que entrei, pelo lado do jardim, deparei-me logo à entrada, à sombra de uma árvore, com a pitoresca cena de uma camponesa, sentada numa manta de retalhos fingindo estar a fazer um piquenique. Iam pessoas a entrar à minha frente, pelo que levaram com a salvação de “boa tarde”, acompanhada de um sorriso da dita camponesa. As pessoas murmuraram entre dentes, uma resposta de “boa tarde”, mas sem sorrisos e sem dar “confiança” à camponesa… As pessoas que assistiam sentadas nos bancos de jardim à volta até se riram e comentaram: “mas que grandes trombas de elefante…”
Realmente! Recebem um sorriso do século XIX, mas no século XXI, parece que já ninguém sabe sorrir. Eu bem estou sempre a dizer que nasci no século errado. Se calhar por isso, é que gosto tanto de entrar em locais históricos como este. Talvez noutra vida tenha sido uma dama da Corte de algum rei… Quem sabe!?
Logo ali perto encontrava-se uma bancada de antiguidades, à qual não resisti tirar umas fotos. A Ana deteve-se numas botas, dizendo que pareciam iguais às que ela calçava em criança, e o estojo de compassos completo, como usavam antigamente na escola…

Mais uns passos e eis que nos deparamos com estas figuras: um nobre, algumas damas e uma criada, que passeavam juntos.
Como me viu a tirar fotos a seus belos trajes, perguntou-me se tínhamos acabado de chegar. Respondi que sim.
E aí, com seu ar de importante pessoa que era, pediu à criada que abrisse a caixa que transportava, para ela tirar 2 papéis de lá: um explicando a importância de um baile, e de como dar um baile, e o outro explicando o que se deve fazer, quando se recebe um convite para um baile…

Agradeci tal amabilidade e perguntei: “e que tal uma foto aqui com a criança para a posteridade?”
- Uma foto?
Fica pensativa e responde: “sim, pode ser uma foto.”
Mas depois lembrando-se que provavelmente naquela época ainda não tinha sido inventada a máquina fotográfica, rematou: “ou seja lá o que isso for”, lol…
E aqui a criança sorriu mesmo com vontade para “o passarinho”…
Continuámos caminho, e parámos numa banca de brinquedos tradicionais, todos feitos à mão. Um encanto. E era ver as crianças soprando em passarinhos de barro, com água dentro, cujo som enchia o jardim de alegres cantares de passarinhos…
Depois parámos no oleiro, que mesmo ali à nossa frente moldava e esculpia o barro.
É a roda que gira sem parar e as suas mãos hábeis que fazem a peça que dali nasce… Ele faz parecer tudo tão simples, mas quando somos nós a tentar, saem autênticos “trambolhos”…
Andámos mais um bocadinho, e tivémos a possibilidade de nos caracterizarmos como uma figura do século XIX. Aqui o escolhido foi o Tiago: de cartola, luvas, monóculo, cachimbo e bengala, sentiu-se um importante Senhor, e imaginou-se na pele de um possível dono desta quinta…

Mais uma bancada à frente e temos o gostinho do puro mel de rosmaninho, podendo assistir ao vivo, a um pouco da vida numa colmeia, com as atarefadas abelhas. Nunca tinha visto ao vivo um favo de mel… E diz a Ana: “e que bom que era chupar este mel…”
Ela, ao contrário de mim, cresceu no campo, por isso teve uma infância muito mais feliz e experiente.
De repente, uma música bonita alegra o ambiente. “Vamos apressar-nos, parece que o baile está a começar…”
E ao chegar ao fundo do jardim, eis o salão de baile montado. Só que desta vez, é para pessoas como nós, do século XXI.
Aqui uma professora de dança, ensina os passos correctos. De microfone na mão, lá vai dando instruções a quem se quis juntar a ela.
E depois quando pensa já estar tudo ensaiado, recomeça a música e vai cada um para seu lado, lol…
Comento para a Ana: “são muitos passos para decorar, isto é difícil…”

A pequena capela do jardim, hoje abriu as suas portas e lá dentro, sentado, tocava um talentoso músico. Como é lindo o som da velhinha guitarra portuguesa. Uma pessoa fica ali à entrada encantada com a música, e com os magníficos e antiquíssimos azulejos da capela…
Defronte, um pintor esboçava num papel estilo antigo, os rostos de quem conseguia manter-se imóvel por algum tempo, para que a obra de arte nascesse…
Dentro do solar, o deslumbre em cada sala…
“Mãe, não me importava nada de morar aqui…” – diz o Tiago.
“- Pois! Nem eu filho, nem eu…”
Diz a Ana: “aqui de Inverno nem se passa frio. Basta olhar para a grossura das paredes, como só antigamente faziam…”
Ao sair do solar, um carro de bombeiros antigo aguardava a curiosidade das crianças e dos adultos. E era vê-los a tocar o sino, como que a avisar do perigo, a sentarem-se no banco do condutor, sem conseguirem chegar aos pedais, e a explorarem cada recanto, cada utensílio que compunha o carro…
Quem teve a honra de fazer o encerramento da festa foi um grupo de mulheres cheias de ritmo: “As Tucanas”.
O público adorou!
Com uma parte dos instrumentos inventados, uns feitos de bidons ou restos industriais conseguem uma sonoridade única. O som forte e ritmado dos tambores até parece tocar dentro de nós.
“- Oh mãe, até parece que se sente o som aqui…” – dizia o Tiago, apontando para o peito e a barriga.
Está de parabéns este grupo, que não conhecia. Com temas inspirados nas tradições portuguesas, africanas e brasileiras, conseguiram captar a atenção e deleite do público, principalmente os mais pequeninos, que sentados no chão, olhavam espantados, como até de um rude bidon sai música…
E assim passámos uma tarde espectacular. Contei aqui apenas parte do que vi e vivi. Sim, porque se fosse a contar tudo, este blog virava um diário, e não haveria pachorra para me lerem até ao fim.
Saí do solar pelo sítio onde entrei, pelo lado do jardim, ou seja: fomos dar à manta de retalhos onde se fazia o piquenique. E agora quem lá estava não era a camponesa, mas sim o camponês.
A Ana não resistiu e pediu uma foto, sentada, junto ao farnel. Perguntou ao camponês se podia tomar a liberdade, e ele disse que sim.
Quando se levantou, disse-lhe: “e já agora, porque não tirar uma foto com o dono do farnel?”, que se encontrava sentado no banco do jardim…
“Venha cá menina, sente-se aqui. Faz de conta que estamos a namorar.” – aproveitou logo ele.
Como tomou a liberdade de lhe por o braço por cima, eu ainda fiz o comentário: “olhe não abuse, que no seu século, não namoravam assim…”
Ele respondeu com ar de maroto: “namoravam sim, mas era ao lusco-fusco…”
E para a foto, até ficou a piscar o olho. Pudera! A menina Ana até era jeitosa, loirinha e de olho verde…










segunda-feira, 7 de junho de 2010

Se ao menos eu pudesse...

Ai, se eu pudesse…
Trocaria num ápice a cidade pelo campo…
Trocaria a correria e a vida agitada, pela paz e pelo sossego…
Trocaria o ar poluído, pela inalação do ar puro e vivificante da intocada natureza…
Trocaria o barulho dos automóveis, pelo alegre chilrear de tanta espécie diferente de aves…
Trocaria o ar sisudo das pessoas, por um largo e sincero sorriso dos habitantes da vila…
Trocaria a desumanização das gentes da cidade, pela solidariedade e amabilidade dos Salvaterrenhos…
Trocaria o liso passeio, pelo piso incerto da calçada romana…
Trocaria a água engarrafada pela pureza da água da Fonte da Ribeira…
Trocaria a praia super lotada, pela margem do rio Erges…
Trocaria o vislumbrar de tanto edifício de betão, pelos montes e vales a perder de vista… Trocaria o pão cheio de conservantes, pelo apetitoso pão tradicional…
Trocaria a ida segura a uma frutaria, pelo apanhar e picar das amoras…
Trocaria os legumes e frutas sem sabor, que se estragam em poucos dias, pelo doce e saudável sabor de uma fruta apanhada de colher…
Trocaria o perigo para uma criança, de brincar nas ruas, pela liberdade de brincar pelos campos… Trocaria as noites a ver televisão, pelas noites a ver as estrelas…
Trocaria o relógio, pelo sino a cantar as horas na Torre do Relógio…
Trocaria o despertar assustado ao som do ruidoso despertador, pelo despertar ao som do cantar de um galo…
Trocaria o Sol a nascer escondido atrás de um prédio, pela beleza de se ir mostrando no horizonte…
Trocaria a falta de tempo, pelo tempo que no campo dá para tudo…
Assim é a vila de minha vida… Tudo isto e muito mais…
Trocaria minha vida na cidade, pela vida em Salvaterra…
Ai, se ao menos eu pudesse…

terça-feira, 1 de junho de 2010

A todas as crianças do Mundo, e a uma em especial: feliz Dia da Criança...

Ai como eu gostaria de voltar a ser criança.
Poder ter como profissão: brincar…
Ter como preocupações os vestidos e os penteados das bonecas…
Poder ter como obrigação a escola e o estudo, outra vez…
Poder passar o dia a cantar, sem pressa de crescer…
Poder viver num mundo de fantasia e de tanta imaginação…
Poder voltar a acreditar no Pai Natal, na cegonha e em tantas outras lendas ou histórias…
Poder acreditar que tudo é possível acontecer…
Poder viver rodeada de outras crianças minhas amigas, sem maldade, sem falsidade, sem cinismo ou fingimento…
Quem me dera poder apagar dos adultos estes sentimentos e fazer nascer neles, outra vez, um pouco de criança…
Quando oiço perguntar a uma criança, "o que queres ser quando fores grande?”, apetece-me logo responder: ser criança.
E hoje, dia da criança, apenas venho desejar a todas elas um Mundo melhor: alimento para todas, um lar para todas, agasalho para todas, amor, protecção, amparo; enfim, tudo aquilo que as crianças têm direito…
Ao meu filho em particular, desejo uma vida feliz e que ele um dia se torne um homem íntegro, respeitado e respeitador, um homem com valores, e que nunca se deixe corromper pelos males desta sociedade…
Desejo que não seja tão egoísta e dê mais valor ao que fazemos por ele. Talvez, quem sabe, um dia ele chegue lá; talvez um dia quando, também ele for pai…
Tanto tem de bom como de mau, mas como o amo incondicionalmente (uma palavra ainda demasiado grande para ele), venho deixar-lhe esta homenagem neste dia e dizer-lhe que é o meu Mundo e que deu um novo sentido à minha vida.
A ti meu filho, deixo aqui memórias de bons e maus momentos, sim porque olhando para uma foto, em que parece haver alegria, muitas vezes tive de me zangar contigo, só para tirares uma simples foto. Birras e teimosias do momento. Apesar de tudo, sei que um dia, destas não te lembrarás, e só recordarás os bons momentos onde juntos tirámos uma foto.





"Ser criança é acreditar que tudo é possível.
É ser inesquecivelmente feliz com muito pouco.
É tornar-se gigante diante de gigantescos pequenos obstáculos.
Ser criança é fazer amigos antes de saber o nome deles.
É conseguir perdoar muito mais fácil do que brigar.
Ser criança é ter o dia mais feliz da vida, todos os dias.
Ser criança é o que a gente nunca deveria deixar de ser".
Gilberto dos Reis