terça-feira, 1 de junho de 2010

A todas as crianças do Mundo, e a uma em especial: feliz Dia da Criança...

Ai como eu gostaria de voltar a ser criança.
Poder ter como profissão: brincar…
Ter como preocupações os vestidos e os penteados das bonecas…
Poder ter como obrigação a escola e o estudo, outra vez…
Poder passar o dia a cantar, sem pressa de crescer…
Poder viver num mundo de fantasia e de tanta imaginação…
Poder voltar a acreditar no Pai Natal, na cegonha e em tantas outras lendas ou histórias…
Poder acreditar que tudo é possível acontecer…
Poder viver rodeada de outras crianças minhas amigas, sem maldade, sem falsidade, sem cinismo ou fingimento…
Quem me dera poder apagar dos adultos estes sentimentos e fazer nascer neles, outra vez, um pouco de criança…
Quando oiço perguntar a uma criança, "o que queres ser quando fores grande?”, apetece-me logo responder: ser criança.
E hoje, dia da criança, apenas venho desejar a todas elas um Mundo melhor: alimento para todas, um lar para todas, agasalho para todas, amor, protecção, amparo; enfim, tudo aquilo que as crianças têm direito…
Ao meu filho em particular, desejo uma vida feliz e que ele um dia se torne um homem íntegro, respeitado e respeitador, um homem com valores, e que nunca se deixe corromper pelos males desta sociedade…
Desejo que não seja tão egoísta e dê mais valor ao que fazemos por ele. Talvez, quem sabe, um dia ele chegue lá; talvez um dia quando, também ele for pai…
Tanto tem de bom como de mau, mas como o amo incondicionalmente (uma palavra ainda demasiado grande para ele), venho deixar-lhe esta homenagem neste dia e dizer-lhe que é o meu Mundo e que deu um novo sentido à minha vida.
A ti meu filho, deixo aqui memórias de bons e maus momentos, sim porque olhando para uma foto, em que parece haver alegria, muitas vezes tive de me zangar contigo, só para tirares uma simples foto. Birras e teimosias do momento. Apesar de tudo, sei que um dia, destas não te lembrarás, e só recordarás os bons momentos onde juntos tirámos uma foto.





"Ser criança é acreditar que tudo é possível.
É ser inesquecivelmente feliz com muito pouco.
É tornar-se gigante diante de gigantescos pequenos obstáculos.
Ser criança é fazer amigos antes de saber o nome deles.
É conseguir perdoar muito mais fácil do que brigar.
Ser criança é ter o dia mais feliz da vida, todos os dias.
Ser criança é o que a gente nunca deveria deixar de ser".
Gilberto dos Reis

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O pelourinho de Salvaterra do Extremo:

Este texto é a minha contribuição para a blogagem de Maio do site http://aldeiadaminhavida.blogspot.com/, que tem como tema: “este mês, vamos ao Museu.”
Como a minha vila não possui um Museu, porque toda ela é um Museu aberto ao ar livre, onde cada pedra da calçada, de um muro ou monumento conta uma História longínqua, vou falar do monumento que melhor caracteriza qualquer vila, ou seja: o seu pelourinho.
in Dicionário da História de Portugal temos o significado de pelourinho: “coluna de pedra colocada em lugar público, de cidade ou vila, e na qual os municípios exerciam a sua justiça. Era o distintivo da jurisdição de um concelho e da sua autonomia judicial (...) Eram edificados na praça pública. Os delinquentes eram amarrados à coluna ou suspensos por baixo dos braços às argolas, ficando alguns palmos acima do solo, sendo posteriormente açoitados ou mutilados.”
E perante isto, dou comigo a pensar: esta coluna de pedra silenciosa, afinal se pudesse falar, muito teria que contar…
Situado na Praça da vila, defronte do antigo edifício da Câmara e Torre do Relógio, este pelourinho, que tem resistido à passagem do tempo, data do século XVI, por altura do reinado de D. Manuel I, por altura dos Descobrimentos marítimos…

Não é por ser da minha vila, mas é dos mais bonitos em Portugal e com tanto significado nele inscrito.


Segundo a Monografia de Salvaterra do Extremo: “ apresenta a configuração de um septro formado por uma coluna de pedra oitavada da altura de 3 metros, bem trabalhada, a qual finge atravessar nessa altura, um anel de pedra que sobre ela assenta e termina gradualmente oitavado em espiral, formando um facho com balas onde ainda em cada uma das 8 estrias, semelhantes a metralha, que sai da boca de um canhão.


À semelhança do ceptro de El-rei D. Manuel I, o anel apresenta na nascente um escudo com esfera armilar nela esculpida; ao poente, outro escudo com a Comenda da Ordem de Cristo; ao norte outro escudo com a Cruz da Comenda da Ordem de Aviz; e ao sul ainda outro escudo com as quinas portuguesas.


Tanto na parte superior como na inferior do anel, vão 2 cordões em roda com a flor de liz e barcos de canhão e ao centro, a entrelaçar os escudos, um cabo de navio, tudo lavrado em relevo na pedra.
A esfera e o facho – representam Ciência e Progresso.
As balas e bocas de canhão – o Exército
O cabo do navio – a Marinha
As quinas – o Rei
A cruz de Cristo – o Clero
A cruz de Aviz – o povo, como cavaleiro que foi nos seus tempos primitivos.
Encerra, pois, o pelourinho de Salvaterra um alto conceito, próprio para um povo da raia, fronteiro a Espanha, o qual pode dizer de cabeça levantada que aquela pedra diz Ciência e Progresso, Exército e Marinha, rei, clero e povo que, unidos lutaram sempre pela independência de Portugal, com honra e glória imortais…”
Por isso meus amigos, comecem a observar com mais atenção os pelourinhos por este país espalhados, pois tocar na sua coluna, é tocar pedaços de História, para sempre na pedra gravados.

domingo, 2 de maio de 2010

Ser mãe é...

O que é ser mãe? – perguntaram-me um dia.
Ao que respondi:
Ser mãe, é carregar no ventre durante 9 meses um ser, que continuará para sempre ligado a ti, e de ti dependente. Dependente de teu amor, teu carinho, teu conforto, tua ajuda, teus conselhos (se bem que nem sempre ouvidos), enfim, teu colo…
Ser mãe é sofrer na hora do parto, e depois sofrer o resto da vida, sempre que ele não está bem… Ser mãe é perder muitas noites de sono e depois ir trabalhar de manhã cedo, como se tivesse dormido o suficiente…
Ser mãe é sufocar uma lágrima na transparência de um sorriso…
É dizer que tudo está bem, quando na verdade não está…
Ser mãe é fazer tantos sacrifícios, sem nada pedir em troca…
É esqueceres-te de ti própria, a partir do momento em que ele nasce…
Ser mãe é questionares-te em certas alturas se as sementes que hoje plantas, darão uma boa colheita amanhã…
Ser mãe é permitir que ele cresça e ensiná-lo a voar, para que um dia abra suas asas para a vida e aprenda a voar sozinho…
Ser mãe é veres tua própria mãe com outros olhos, e finalmente dares-lhe todo o valor que ela merece, pois só quando temos um filho, é que damos o verdadeiro valor a nossa mãe.
Ser mãe tem muito sacrifício implícito, mas tudo isso é recompensado com a indescritível sensação de dares vida a um ser, de sentires seus pontapés e acariciares a barriga, como se o acariciasses a ele, de o teres nos braços pela primeira vez, de o alimentares com teu próprio alimento, de veres o seu sorriso lindo desdentado, de o veres a gatinhar e a dar os primeiros passos, de ouvires a primeira palavra, de sentires o seu abraço e principalmente quando ouves, se bem que poucas vezes: “mãe, gosto muito de ti…”
Ser mãe é a maior “empresa” do Mundo. Uma tarefa árdua e complexa, que deve ser feita com muito amor, um amor de uma só espécie, como só uma mãe sabe ter e dar: um amor incondicional e sem limites…
Ser mãe é ter um filho no ventre durante 9 meses, e depois tê-lo no coração o resto da vida…
Deixo neste dia, um beijo a todas as mães, e um especial para a minha que peço a Deus poder tê-la a meu lado durante muitos anos, para que possa sempre dizer-lhe:
-Feliz Dia da Mãe!

terça-feira, 27 de abril de 2010

A Páscoa na minha vila...

Este ano só cheguei à terra, mesmo no Domingo de Páscoa, já de noite.


Mesmo assim, ainda deu para ir espreitar o conjunto musical que actuava nessa noite, com suas bailarinas, cujos olhares masculinos olhavam embasbacados para os dotes físicos das meninas, lol…
Deu ainda para assistir ao espectacular fogo de artifício. Este ano, não se pouparam a esforços para dar aos filhos da terra e não só, um maravilhoso espectáculo pirotécnico. Foi para compensar o ano passado, com certeza, em que não foi lançado um único foguete.
Mas foi, de facto, muito bonito. O rebentamento estrondoso no ar, era compensado pelos belos efeitos de luzes, no céu escuro, da noite escura. Maravilhoso!
Na Segunda-feira, os foguetes que começaram pela alvorada a ser lançados, não nos deixaram dormir até mais tarde. Mas a intenção era mesmo essa: para chamar ao pequeno-almoço da chanfana e do arroz com tripas. Eu pessoalmente, dispenso! Mas aconselho a experimentarem, quem sabe até gostam...
Este ano, pela primeira vez, conseguimos todos chegar atrasados à procissão. Como se costuma dizer: “já a procissão ia no adro”, lol… Mas o atraso deveu-se a terem-nos informado que começaria a uma hora, e afinal começou mais cedo.
Desanimei logo um pouco, pois sempre que vou, costumo posicionar-me antes da procissão começar, nos pontos estratégicos que dão melhores fotografias. Este ano, cheguei atrasada, e era ver-me a passar do fim da procissão para o início, e depois eles iam passando, e lá voltava eu, em passo apressado, ao inicio da procissão, voltando a pedir licença às mesmas pessoas para me deixarem passar. Isto nunca me tinha acontecido. Eu que gosto de passar despercebida, este ano fui pior que “fotógrafa de casamentos”, como alguém já me disse, lol…
Quando a procissão chega ao destino, à capela de N. Sra. da Consolação, são então lançados mais foguetes. E quando volta o silêncio, é ver as crianças à procura das tão desejadas canas. Esta é a maior alegria que podem ter, durante os dias que dura a festa.
Depois da missa, dirige-se o andor de N. Sra. e de Sto. António, para o recinto do bodo, onde será benzida a tradicional mesa com o pão, o vinho, o ensopado de borrego, os folares e o saboroso queijo da região. Entretanto já muitos acorreram a apanhar lugar e aguardam com a mesa já posta. Nesta espera, reencontram-se velhos amigos e fala-se dos tempos de meninice e de traquinice…
Começa então a ser servido o pão em grandes cestos, o vinho, e os alguidares da sopa de grão. “-Está boa!” – esta sopa de grão e massa, que farta por si só.
Depois vem o ensopado de borrego, que também não sou muito apreciadora. Mas dizem as boas bocas, que também está muito bom.
E assim se vai passando o bodo. Muitos espanhóis e portugueses juntos, confraternizando entre si…
E depois é vê-los a partir, pois há ainda que fazer grandes viagens, e muitos, Terça-feira já têm de ir trabalhar…
Mas não eu! Este ano aproveitei as férias da escola da criança e meti o resto da semana de férias. E digo-vos: foi o melhor que fiz.
Não há como a Primavera! Está-se cá bem melhor nesta altura, que no calor tórrido do Verão. E é tudo muito mais bonito…
Nestes dias, andei por certas localidades vizinhas, que também são muito bonitas, como: Segura, Termas de Monfortinho e Castelo Branco, e muito tenho eu para contar desta linda cidade… Mas isso, fica para outro post, pois este já vai longo…
Bem haja a todos quanto me visitam e ainda têm paciência para me lerem até ao fim…
Cristina.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

De regresso (espero eu)...

A porta ficou aberta e os visitantes foram entrando. A eles peço desculpa pelo meu longo afastamento, mas nem sempre se tem tempo para tudo e algumas coisas vão ficando adiadas. Tão adiadas que já passou a passagem de ano, o Carnaval e a Páscoa, desde minha última visita. O tempo urge e corre veloz, e nós corremos atrás dele.
Espero que a todos tenham corrido bem estas épocas festivas.
Vou deixar-vos um slide show, com algumas das fotos da minha Páscoa, e assim que me for possível, falarei sobre os belos dias passados em Salvaterra. Foi a primeira vez que tirei férias nesta altura, e valeu bem a pena, porque agora é que se está bem nesta vila.
Desejo a todos uma bela Primavera…

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Noite de paz...

A mesa já estava posta, as couves já coziam, o bacalhau espalhava seu cheiro pela cozinha, e as batatas ainda mal tinham acabado de começar a ferver.
A lareira começava a aquecer a casa.
Aguardávamos com alguma impaciência a restante família que a nós haveria de se juntar.
Íamos tirando fotos. A criança e não só, ia passando várias vezes ao pé da árvore de Natal, tentando adivinhar o que escondia esta ou aquela prenda. Por vezes a curiosidade era maior e apalpava e abanava, tentando adivinhar pelo som que fazia ou não…
A campainha tocou! E logo a casa se encheu de mais calor e alegria.
Beijos aqui, beijos ali e a alegria de nos revermos a todos, e principalmente, de mais um ano passarmos juntos.
Mais umas fotos para o álbum, e eis que chega a hora de jantar.
E surpresa das surpresas quando se abre o tacho das batatas… Este ano a tradição foi quebrada… Já não teríamos o tradicional bacalhau com couves e batatas cozidas.
Com a alegria de nos revermos e tirar fotografias, até nos esquecemos das batatas ao lume, pelo que este ano teríamos puré de batata…
O desconsolo de minha mãe que nem acreditava, dizendo para meu pai:
“-Mas eu pensava que já tinhas apagado o lume às batatas…”
“-E eu pensava que tu é que estavas a tomar conta delas.” – respondia ele.
Vá lá, salvaram-se as couves e o bacalhau…
Que importa? Importa é que estávamos todos juntos outra vez.
O jantar foi animado, afinal há tanto que pôr em dia passado tanto tempo.
Não foi passado em Salvaterra. Foi passado longe, muito longe! Mas o longe depressa se tornou perto, quando se começou a falar do que por lá estaria a acontecer nesta noite: do madeiro no adro da igreja, das histórias de meus avós e dos chocolatinhos que minha avó ia comprar a Espanha para pôr nos sapatinhos dos filhos.
E a criança ouvia deliciada tudo com atenção. E ria-se e pasmava-se quando lhe expliquei que os sapatinhos deles naquela altura não eram botinhas como as de agora com o desenho do Pai Natal, penduradas na lareira, eram mesmo os sapatos que eles calçavam…
Não havia enfeites pela casa, nem luzinhas, nem árvore de Natal. E quem “dava” os presentes nessa altura era o menino Jesus. O Pai Natal surgiu anos mais tarde.
E com o decorrer da conversa, depressa passámos a estar em Salvaterra, revivendo o Natal de antigamente…
“-Faz quase 20 anos que o pai se foi…” – diz minha tia, a minha mãe.
E eu penso: 20 anos? Como podem ter passado 20 anos se me lembro tão bem de meu avô, e de minha avó que pouco mais durou quando ele se foi.
20 anos e parece que foi ontem. Como o tempo corre veloz… Como é cruel o tempo quando nos leva quem amamos…
Porém, não leva em nós a saudade e as recordações.
E foi assim a minha noite de Natal. Recheada de doces, de recordações, de alegria e união familiar. Que mais se pode desejar?
Mas o auge da noite ainda estava para vir…
Como o mais pequeno da família afirma constantemente que o Pai Natal não existem, este ano resolvemos pregar-lhe uma partida…
Há 3 fases na vida de um homem: quando acredita no Pai Natal, quando já não acredita no Pai Natal, e quando ele se torna o Pai Natal. E foi o que aconteceu esta noite…
Convencemos o avô a vestir-se de Pai Natal, para ver a reacção do neto…
Distraímos o neto para que não desse por falta do avô, metemos o avô na rua à meia-noite, lol, e voltei a correr para me juntar a todos.
Dlim, dlão!
Oh! Quem será a esta hora?
E vejo a cara de espanto de meu filho, pois já não esperávamos mais ninguém.
Mas logo ele perguntou: “-O avô? Onde é que está o avô?”
“-O avô está na casa de banho”, inventei eu à pressa.
Ele então, desceu as escadas a correr, abriu a porta da rua sem perguntar quem era e ficou espantado; completamente espantado a olhar para aquela figura de vermelho e com um saco às costas.
Nunca me hei-de esquecer da cara de espanto que ele fez. Acho que por um momento acreditou mesmo no Pai Natal.
Mas depois o Pai Natal falou. E claro que o neto que não é parvo viu logo quem era.
Mas também não se desmanchou e entrou na brincadeira dizendo-lhe:
“-Mas entra. Entra!”
E o Pai Natal entrou e foi risada total quando a restante família viu o avô mascarado.
E aí começou a distribuição das prendas.
Foi uma noite acalorada. Frio lá fora, mas muito “calor” cá dentro.
E até eu fiquei surpresa ao ver minha prenda, pois convenceste-me que iria ter um aspirador novo e afinal… Não esperava, amor. Não esperava mesmo!
Mas sabes? A maior e melhor prenda que posso ter todos os anos pelo Natal… és tu!
És tu, é meu filho, é minha família e meus amigos verdadeiros (que são poucos, mas são verdadeiros). Este é o maior bem que posso ter todos os anos. Só com isto já sou muito feliz!
E às vezes esperamos tanto a felicidade, e não vê-mos que já a temos…

Um dia de Natal muito feliz a todos, e continuação de uma quadra feliz!
Sejam felizes!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Natal na minha terra...


Vou hoje fazer mais uma viagem ao passado e contar-vos como se vivia toda a época natalícia cá na terra, há uns anos atrás.
Tenho algumas memórias que me marcaram, e outras são de minha mãe, com quem falei sobre isso noutro dia.
Meu filho que ia ouvindo a conversa, nem imaginava que era assim. Nem sequer acreditava que não se recebiam brinquedos como prenda, que não havia computadores, jogos ou outras coisas que as crianças de agora têm, e que afinal, nem é isso que mais precisam.
Pois é, não havia essas prendas, nem o consumismo, mas havia algo que não há hoje em dia: o verdadeiro espírito do Natal… E esse não se compra, não se vende, não se fabrica… Esse nasce em cada um de nós; nasce em conjunto numa pequena aldeia onde todos são como uma grande família… E ainda mais unidos, sempre que chegava esta altura.
Tudo começava no dia 8 de Dezembro, quando à volta da estrada todos aguardavam ansiosamente pelo madeiro, que vinha em carroças puxadas por burros (quando ainda os havia em grande quantidade; sim, porque até os burros hoje estão em extinção). Os grandes troncos de madeira vinham cobertos por lindas colchas, e atrás da carroça, vinham rapazes e raparigas, a cantar canções de Natal.
E todos juntos, fazia-se depois atrás da carroça, o percurso até ao adro da igreja, onde os troncos eram deixados no chão. Ali ficariam até ao dia 24, altura em que lhes pegavam fogo, fazendo assim uma enorme fogueira, que nunca se apagava, e que estaria toda a noite de 24 e todo o dia de 25 a queimar, para aquecer o menino Jesus.
É o Madeiro do Menino Jesus: uma tradição milenar que se mantém ainda viva nesta aldeia, bem como em muitas outras do interior do país, e que espero nunca morra.
Há lembranças que nunca se apagam de nossa memória, e esta que tenho é uma delas: o madeiro a arder em altas labaredas, e as pessoas à sua volta, também elas a aquecerem-se no frio gelado da noite.
Na noite de 24, em trabalho conjunto e alegre de família, faziam-se as filhoses que eram tendidas no joelho. À roda da lareira, com um pano sobre os joelhos, esticavam-se bocados de massa, dando uma forma única a estes doces, que eram depois fritos em azeite e polvilhados de açúcar e canela, ou sem nenhum destes temperos, para serem guardados em arcas para durarem mais tempo.
Tudo tinha de estar pronto até à meia-noite, pois não se podia faltar à missa do galo.
Depois da missa iam todos para casa e deitavam-se.
De manhã cedo, minha mãe e os irmãos, todos crianças nessa altura, tentavam acordar o mais cedo possível, e ficavam todos contentes quando minha avó lhes dava 1 caixa pequenina de bombons. Não havia cá brinquedos, livros ou outras coisas: apenas uma simples caixa de bombons. E esta já fazia a alegria de todos.
Não havia dinheiro para mais… Podiam não ter o que os meninos ricos tinham nesse dia, mas tinham tudo aquilo que seus pais lhes podiam oferecer. E principalmente, um lar onde todos eram unidos, onde reinava não só o respeito para com seus pais, mas também a devoção, o amor e o carinho uns pelos outros.
Eles, sem se darem conta, é que possuíam o verdadeiro espírito do Natal, e hoje, tenho certeza: minha mãe e meus tios tudo dariam para voltar a ser crianças, e poderem ter como presente, apenas uma simples caixinha de bombons…
Tenho poucas lembranças dos Natais que fui passar com meus avós, mas das poucas lembranças que tenho, de todas elas, tenho sempre a mesma sensação: foram os melhores Natais que tive, e nada se lhes compara, mesmo tendo, também eu, recebido apenas uns ovinhos de chocolate (eu, e meus primos). E só hoje, dou o devido valor a esses simples ovinhos de chocolate.

Mas nesta altura também ocorria por aqui outro evento, um pouco sanguinário e cruel para os porcos da aldeia, mas que morriam por uma boa causa, diziam meus avós. Morriam para dar de comer às famílias de fracos recursos, e que passaram o ano todo a engordá-los.
Em Dezembro, os filhos que tinham partido à procura de vida melhor, sempre regressavam a casa de seus pais para ajudar na atarefada matança do porco, e para levarem também eles, quando partissem novamente, o carro atestado de carne e enchidos que dariam para muitos meses do ano seguinte. Lembro-me bem de quando partíamos e meu pai dizia à minha avó: “Oh, ti Maria, não vê que o carro já está cheio? Não vê que não leva mais nada?” Mas a “ti Maria” sempre encontrava mais algum buraquinho para meter mais farnel…
E lá seguia o carro atestado (quando já tínhamos carro, pois lembro-me de antes fazer a viagem de comboio). Seguia atestado com tudo aquilo que minha avó conseguisse lá “enfiar”. E o meu pai, todo o caminho a refilar por ter pouca visibilidade no vidro traseiro…
Lembro-me de que quando regressávamos a casa, minha mãe pendurava os enchidos na chaminé, por cima do fogão, e era esta a visão que teria por muitos meses. Porque os enchidos não ficam logo bons para comer ou cozinhar. Têm de ir secando com o tempo.
Lembro-me de como eram horríveis os grunhidos de sofrimento do porco sacrificado nesta altura, em nome da tradição e da necessidade.
Os homens da família espetavam-lhe uma faca directa ao coração, para que seu sofrimento fosse menor, mas mesmo assim, era um espectáculo a que nunca consegui assistir, pois ao prenderem-no, parece que o porco já pressentia que ia morrer, e guinchava fortemente. Nunca consegui ver o porco a morrer, e por mais que me escondesse, seus grunhidos vinham sempre ter a meus ouvidos.
Pobre porco… pensava eu. Porque tinha de ser assim? Nunca me conformava com a sua triste sorte. É assim a vida e a tradição, diziam-nos os adultos. E pouco a pouco, nós crianças, lá nos conformávamos; afinal, tínhamos de comer.
Depois de chamuscada a pele do porco, tudo nele se aproveitava e seria alimento para meses.
As tripas eram muito bem lavadas no rio, e depois em casa, transformar-se-iam em enchidos de várias espécies, que seriam pendurados no tecto, ainda de madeira, da cozinha. Ali ficariam a secar, até que pudessem ser guardados e comidos. Eram chouriços, farinheiras, morcelas, paios… Tudo feito artesanalmente e pelas mãos hábeis das mulheres. Também eu ajudei a encher muitos… E não haverão nunca no Mundo, mais enchidos como estes: nada que se compare aos de agora, fabricados industrialmente.

E era assim passado o mês de Dezembro: com muito trabalho, mas também com muita alegria e união familiar.
E quando chegasse Janeiro, logo se comprariam novos “bacorinhos”, que engordariam e cresceriam durante todo o ano, para também eles terem o mesmo final que seus pais em Dezembro.

Deixo-vos com uma foto de meus queridos avós, e o resultado do árduo trabalho da matança do porco.


Era uma festa para todos, excepto para o porco, claro…

Um feliz Dezembro para todos vós. Que a paz, a saúde, a harmonia, a alegria e principalmente o amor, inunde vossos lares e corações, e se perpetue pelos restantes meses do ano…

FESTAS FELIZES!

P.S.: este é o meu contributo para a blogagem: "O Natal na minha terra", a decorrer no site http://aldeiadaminhavida.blogspot.com/.

Vão lá dar o vosso contributo com comentários a todos os participantes, pois é por uma boa causa...