terça-feira, 9 de junho de 2009

A aldeia de minha vida...

Aldeia calma e silenciosa
Outrora por muitos habitada,
Assim é hoje Salvaterra
Do cimo do monte avistada.

As ruas ganhavam vida com as gentes
De coração nobre e generoso
Terra de meus antepassados
Cheia de história, a deste povo caloroso.

Ladeada por um rio
Que separa Espanha e Portugal
Ela resiste ainda hoje
E mantém-se intemporal.

Fecho os olhos e recordo
Meus avós com saudade
Que batalharam toda a vida
Para aos filhos dar comodidade.

Eram pobres mas felizes
Por muitos sacrifícios passaram
Sempre prezaram a família
E uns aos outros se amaram.

A calçada que é romana
Já por muitas gerações pisada,
Continua a servir-nos de caminho
E mantém-se inalterada.

Até as furdas resistem ao tempo
E mantêm-se imutáveis,
Feitas de xisto e granito
Hoje muitas são já inabitáveis.

Apenas o silêncio é cortado
Pelo badalar de um sino,
Que há muitos anos insiste
Em dar-nos as horas como um hino.

O rio que dá forma à rocha
Canta alegremente a canção
Da água cristalina e despoluída
De tanta roupa lavada, com sabão.

A fonte sempre a jorrar
Ainda hoje não secou,
A ela sempre vinha meu avô
Com a cântara e o burro que albardou.

Cada pedra da calçada
É testemunha de vida passada
Tanta História aqui foi escrita
Desde a espada à enxada.

Os brazões nos monumentos
São uma boa prova viva
Pois de épocas bem diferentes
São História ilustrativa.
As águias vigiam lá de cima
Em altos voos planando
Mantêm-se atentas a cada movimento
E descem a pique, alimento avistando.

Santuário protegido
De tanta espécie animal,
Também de flora guarnecido
Da natureza pura, um portal.

Os poços que cantam alegremente
Com o precioso líquido celeste
Deles já dependeu este povo
No tempo da vida agreste.

Ao andar por estas ruas
Invade-me uma estranha sensação
Parece que as mesmas ganham vida
Com quem só já vive, em meu coração…

Cristina R.

Falando da Freguesia de Salvaterra do Extremo,
Concelho de Idanha-a-Nova,
Distrito de Castelo Branco.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O futuro tocando o passado...

O que é preciso para fazer uma criança feliz?
Às vezes muito pouco. Às vezes as pequenas coisas que podemos fazer por eles, serão para eles as mais grandiosas e inesquecíveis…
Neste caso, apenas deixá-lo tocar o sino.
O sino que ele tantas vezes via apenas lá de baixo. Uma criança pequena em frente a uma torre que lhe parecia tão alta e inatingível. Sim, porque quando se é pequenino, tudo nos parece grande e inacessível…
O sino que ele tantas vezes pensava só a cegonha poder lá chegar, e que era tocado por alguém cá em baixo, que puxava uma corda…
E quando se é criança, e se deseja tanto algo, quando o nosso sonho se realiza, esse sim, será dos dias mais felizes e inesquecíveis da nossa vida.
E tão feliz estava este menino, que até os olhos pareciam estrelas a brilhar… Tão feliz que ainda hoje sonha e pensa nisso e em repetir novamente a experiência.
Louvo o Ti Arnaldo, o velhinho que se vê na filmagem a dar instruções, que, com os seus noventa e tal anos, continua a subir aquelas escadas estreitas, escuras e escorregadias em espiral, para chegar ao campanário da igreja, e fazer ecoar as suas badaladas pelos ares. Que Deus lhe dê muitos mais anos para assim continuar...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Jornal "Raiano"...

Hoje, em resposta ao amigo João Celorico, e a título informativo para todos aqueles que estiverem interessados, vou fazer publicidade gratuita ao jornal “Raiano”.
Este é um jornal mensal que fala das terras do Concelho de Idanha-a-Nova, e serve principalmente, para fazer chegar aos que estão longe, novas da sua terra.

Deixo-vos então os seguintes dados:

“Jornal Raiano”

Morada: Largo do Adro, 11
Idanha-a-Nova
Apartado 54
EC Idanha-a-Nova
6064 – 909 Idanha-a-Nova

Telefone do jornal: 277 202 169
E-mail: jornalraiano@gmail.com

Preço do jornal:
Avulso: € 0,70
Assinatura anual: € 8,00

Já agora deixo os meus parabéns à equipa jornalística, por darem voz a tudo o que se passa nas redondezas de Idanha, e por fazerem chegar o jornal, a muitos que estão a Kms de distância, e podem assim manter-se a par do que vai acontecendo por lá.
Bem haja, e continuação de bom trabalho!

Viagem a Salvaterra...

Esta é a minha forma de agradecer a gentileza do amigo João, colocando-lhe os seus versos aqui na frente do blog, para que “salte” logo à vista de quem por aqui passa…
Mais uma vez, um muito obrigada por eles.
Bem haja!

VIAGEM A SALVATERRA

Embrulhos e mala, de cartão,
(era o que estava na berra),
metemos dentro o coração
e vamos direitos a Salvaterra.

Na estação do Rossio,
entrámos para a carruagem.
Dos meus pais e meu tio
beijinhos e boa viagem!

O comboio lá partiu,
resfolgando, a vapor,
e até o Sol p'ra nós se riu.
O dia ia ser de calor!

Olha! Como é lindo o Tejo!
Além o campo! Além a serra!
Cumpria-se o meu desejo
a caminho de Salvaterra!

O comboio, a correr,
pouca terra, pouca terra,
parecia querer dizer,
Salvaterra, Salvaterra!

As terras p'ra trás ficando
pouca terra, pouca terra,
e nós, por dentro, pensando,
Salvaterra, Salvaterra!

Parámos no Entroncamento,
pouca terra, pouca terra,
e lá estava o pensamento,
Salvaterra, Salvaterra!

O Tejo e as margens, de xisto,
pouca terra, pouca terra,
que de espanto eu não resisto,
Salvaterra, Salvaterra!

Até a água fresca, em Belver,
pouca terra, pouca terra,
parecia continuar a dizer,
Salvaterra, Salvaterra!

Bilhas de barro, de Nisa,
pouca terra, pouca terra,
e nós, já em camisa,
Salvaterra, Salvaterra!

Castelo Branco! A paragem!
O primeiro acto encerra!
Já está metade da viagem!
Salvaterra, Salvaterra!

Mais de 2 horas de espera,
ao calor, feito um pateta.
Não havia sombra. Pudera!
Até aparecer a camioneta.

Na camioneta, modelo antigo,
pachorrenta, bem ronceira,
sinto já o calor amigo
das gentes, como eu, da Beira!

Parámos na Idanha (não a Velha)
e seguimos à Senhora da Graça,
que Boa Viagem aconselha
a todo o que por lá passa.

O calor continuava
e a camioneta, ronceira,
embalando nos levava
a caminho da Zebreira.

Ao "leque" chegados
antes de a Segura ir,
aqueles, os mais avisados,
resolvem ali sair.

E a camioneta, estilo ronceiro,
de modelo tão peculiar,
transforma tudo em padeiro,
sem farinha para amassar!

Mas já nada nos fazia "mossa",
tal a ânsia de chegar à terra,
porque até mesmo de carroça,
nós íamos a Salvaterra!

Uma vez ao adro chegados,
não sentimos mais calor.
Agora, à família abraçados,
sentimos sim, só Amor!

E pelo que sinto, cá no fundo,
já que estou na minha terra,
vou gritar a todo o Mundo,
Salvaterra, Salvaterra!

Autor: João Celorico

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Páscoa na minha aldeia...

Sei que já estamos em Maio, e para muitos a Páscoa já está esquecida, mas só agora tive tempo de acabar estes singelos versos, referentes à Páscoa que passou. Muito mais fica por dizer, o que farei assim que tiver mais um tempinho…

A Páscoa na minha aldeia:

Minha aldeia na Páscoa
É linda a valer
É a Primavera em flor
É Jesus a renascer.

São os sinos a repicar
Para todos ao adro chamar
É a procissão que vai começar
Acendem-se velas para alumiar.

Alumia-se Nª Senhora
E Sto. António com o menino
Que são pelos crentes carregados
Entoando cânticos num hino.

Todos se revezam,
Para o andor carregar.
Uns cumprem promessas
Outros pedidos fazem, a rezar.

É a fé popular
Tradição já muito antiga
Foi a salvação por Nª Senhora
Que do povo foi tão amiga.

Da praga de gafanhotos
Livrou as searas fustigadas
E desde aí o povo prometeu
Sempre fazer as mesmas caminhadas.

Também um bodo se prometeu
Fazer aos pobres, anualmente
Onde nunca faltasse fartura
O carinho, a amizade e o crente.

No recinto do bodo,
Já fervilha o caldeirão
É muita a fartura neste dia
E a ninguém faltará o pão.

Antes do piquenique começar
Lá está o Sr padre para benzer
O pão, o vinho, a carne, a sopa,
E o folar, que todos hão-de comer.

Diz meu pai, por brincadeira
Que aquele vinho a todos faz bem,
Pois é o vinho de Nª Senhora
Abençoado pelo Sr. Padre: amem!

Pois não sei se é do vinho
Ou mesmo do próprio convívio
A alegria espalha-se por todos
Num contagiante alívio.

Também vêm espanhóis para o piquenique
Pois sempre prevaleceu a amizade
Entre estes dois povos vizinhos
Que juntos festejam em fraternidade.

Este ano faltaram os foguetes
E muito triste ficou o Tiago
Pois não pôde ir apanhar a cana
Para com ela brincar no largo.

“Olha a laranjinha
Que caiu, caiu,
Do cimo do monte
Nunca mais se viu…”

Assim canta o grupinho
Que parece mais contente
E logo chega o acordeão
Que dará voz a toda a gente.

E mais uma vez sorriu
Nª Senhora esplendorosa
Por ver a devoção de um povo
Nesta festa tão amistosa.

Espero que sempre haja
Quem continue esta festa
Que se mantenha a tradição
Nesta vila tão modesta.

Cristina R.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

As portas que Abril abriu...

Ontem enquanto ajudava meu filho a fazer os trabalhos de casa, deparei-me com este belo poema de Ary dos Santos, a propósito do 25 de Abril, e as portas que o mesmo abriu.
Por ser muito extenso, cortei algumas partes, mas quem quiser saber o resto facilmente
poderá encontrar todo o poema numa pesquisa na net.
Tinha apenas 4 anos quando se deu a revolução. Tenho apenas na lembrança, minha mãe
dizer a meu pai, muito aflita, quando este chegou a casa do trabalho,
que estava a acontecer uma revolução.
E agora, todos os anos, o país recorda como os homens corajosos do 25 de Abril,
libertaram todo o país da opressão, da escravidão, da podridão, da corrupção…
Mas basta olhar para o Portugal de hoje e perguntar: as portas que Abril abriu,
não estarão já hoje meio cerradas?...
O povo e os militares corajosos que fizeram uma revolução não de tiros, mas sim de
cravos, não fariam falta nos dias de hoje?

E sem mais dizer, deixo-vos então o poema: “As portas que Abril abriu”:



Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
(…)
Um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado.

Onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado.

Onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado.

Pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado.

Que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
(…)
Vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões

Um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão.

Esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
(…)
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
(…)
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras.

Desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.

E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam.

A hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
(…)
E o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
(…)
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver.

Este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler

Que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
(…)
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

José Carlos Ary dos Santos
Lisboa, Julho-Agosto de 1975