quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Páscoa na minha aldeia...

Sei que já estamos em Maio, e para muitos a Páscoa já está esquecida, mas só agora tive tempo de acabar estes singelos versos, referentes à Páscoa que passou. Muito mais fica por dizer, o que farei assim que tiver mais um tempinho…

A Páscoa na minha aldeia:

Minha aldeia na Páscoa
É linda a valer
É a Primavera em flor
É Jesus a renascer.

São os sinos a repicar
Para todos ao adro chamar
É a procissão que vai começar
Acendem-se velas para alumiar.

Alumia-se Nª Senhora
E Sto. António com o menino
Que são pelos crentes carregados
Entoando cânticos num hino.

Todos se revezam,
Para o andor carregar.
Uns cumprem promessas
Outros pedidos fazem, a rezar.

É a fé popular
Tradição já muito antiga
Foi a salvação por Nª Senhora
Que do povo foi tão amiga.

Da praga de gafanhotos
Livrou as searas fustigadas
E desde aí o povo prometeu
Sempre fazer as mesmas caminhadas.

Também um bodo se prometeu
Fazer aos pobres, anualmente
Onde nunca faltasse fartura
O carinho, a amizade e o crente.

No recinto do bodo,
Já fervilha o caldeirão
É muita a fartura neste dia
E a ninguém faltará o pão.

Antes do piquenique começar
Lá está o Sr padre para benzer
O pão, o vinho, a carne, a sopa,
E o folar, que todos hão-de comer.

Diz meu pai, por brincadeira
Que aquele vinho a todos faz bem,
Pois é o vinho de Nª Senhora
Abençoado pelo Sr. Padre: amem!

Pois não sei se é do vinho
Ou mesmo do próprio convívio
A alegria espalha-se por todos
Num contagiante alívio.

Também vêm espanhóis para o piquenique
Pois sempre prevaleceu a amizade
Entre estes dois povos vizinhos
Que juntos festejam em fraternidade.

Este ano faltaram os foguetes
E muito triste ficou o Tiago
Pois não pôde ir apanhar a cana
Para com ela brincar no largo.

“Olha a laranjinha
Que caiu, caiu,
Do cimo do monte
Nunca mais se viu…”

Assim canta o grupinho
Que parece mais contente
E logo chega o acordeão
Que dará voz a toda a gente.

E mais uma vez sorriu
Nª Senhora esplendorosa
Por ver a devoção de um povo
Nesta festa tão amistosa.

Espero que sempre haja
Quem continue esta festa
Que se mantenha a tradição
Nesta vila tão modesta.

Cristina R.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

As portas que Abril abriu...

Ontem enquanto ajudava meu filho a fazer os trabalhos de casa, deparei-me com este belo poema de Ary dos Santos, a propósito do 25 de Abril, e as portas que o mesmo abriu.
Por ser muito extenso, cortei algumas partes, mas quem quiser saber o resto facilmente
poderá encontrar todo o poema numa pesquisa na net.
Tinha apenas 4 anos quando se deu a revolução. Tenho apenas na lembrança, minha mãe
dizer a meu pai, muito aflita, quando este chegou a casa do trabalho,
que estava a acontecer uma revolução.
E agora, todos os anos, o país recorda como os homens corajosos do 25 de Abril,
libertaram todo o país da opressão, da escravidão, da podridão, da corrupção…
Mas basta olhar para o Portugal de hoje e perguntar: as portas que Abril abriu,
não estarão já hoje meio cerradas?...
O povo e os militares corajosos que fizeram uma revolução não de tiros, mas sim de
cravos, não fariam falta nos dias de hoje?

E sem mais dizer, deixo-vos então o poema: “As portas que Abril abriu”:



Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
(…)
Um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado.

Onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado.

Onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado.

Pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado.

Que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
(…)
Vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões

Um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão.

Esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
(…)
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
(…)
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras.

Desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.

E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam.

A hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
(…)
E o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
(…)
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver.

Este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler

Que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
(…)
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

José Carlos Ary dos Santos
Lisboa, Julho-Agosto de 1975



segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tenho saudades...

Tenho saudades da minha aldeia, que é também meu refúgio.
Tenho saudades do rio que corre sem parar, como se tivesse pressa para no mar desaguar…
Tenho saudades do vento que feliz percorre montes e vales. Invejo até a sua liberdade; nada o detém, nada o prende e pode ir para lá do horizonte…
Tenho saudades da brisa fresca da manhã, e da brisa calorenta da tarde.
Tenho saudades das noites de luar, em que o céu não pára de brilhar, e o Universo não pára de nos espantar.
Tenho saudades das estrelas-cadentes que velozes deslizam no céu nocturno.
Tenho saudades do chilrear desenfreado dos pássaros, nesta altura da Primavera.
Tenho saudades das cegonhas no campanário.
Tenho saudades das flores que despertam depois do longo Inverno, e deixam no ar o seu suave perfume.
Tenho saudades das ruas, das casas de xisto, dos passeios romanos ancestrais. Do cruzeiro à volta da estrada, do pelourinho imponente e vaidoso, da igreja mais bela de Portugal.
Tenho saudades dos passeios a pé e das paisagens maravilhosas.
Tenho saudades do ar puro e das faces rosadas que só o campo nos faz.
Tenho saudades da paz que aí sinto. Do sossego e do silêncio que me envolve.
Aqui sempre encontro a tranquilidade necessária para restabelecer forças físicas e mentais. Aqui sempre encontro a esperança que pareço já ter perdido, e a coragem para continuar.
Tenho saudades, simplesmente, de mais uma vez lá voltar…

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Está a chegar a Primavera…

Está a chegar a Primavera…
E eu espero que ela chegue bem depressa.
Estou farta do Inverno na minha vida.
Estou farta de dias escuros e cinzentos…
Estou farta do vento que sopra furioso,
Estou farta do frio que nos gela a alma…
Quero renascer nesta Primavera.
Quero sentir que vale a pena tanta luta,
Tanto esforço pela felicidade…
Quero renascer com a natureza,
Quero voltar a ser menina,
Quero que a vida me dê novas oportunidades,
Para que não cometa os mesmos erros…
Quero gritar do alto de um penhasco
E libertar tanta tristeza e agonia…
Quero recomeçar de novo neste meu grito.
Quero plantar flores com minhas lágrimas,
E quero libertar minha existência
Do vazio profundo em que mergulhou…
Do Inverno infinito em que se encontra…
Preciso de luz na minha vida,
Preciso de ti e teu amor.
Preciso daquele amor inicial
Que me fez tão, mas tão feliz…
E a quem eu queria tanto, mas tanto fazer feliz…
Preciso fugir daqui,
Mas levar-te comigo,
Para que de novo nos reencontremos…
Para que juntos encontremos a Primavera em nossas vidas…
Preciso ser feliz!
Mas para isso, só precisava que tu o fosses...
Preciso que venhas para casa que a noite já vai longa…
Preciso que deixes o Inverno lá fora,
E inundes este lar de Primavera.
Porque afinal, está a chegar a Primavera…

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O mês de Dezembro em Salvaterra...

Vou hoje fazer mais uma viagem ao passado e contar-vos como se vivia toda a época natalícia cá na terra, há uns anos atrás.
Tenho algumas memórias que me marcaram, e outras são de minha mãe, com quem falei sobre isso noutro dia.
Meu filho, de apenas 9 anos, que ia ouvindo a conversa, nem imaginava que era assim. Nem sequer acreditava que não se recebiam brinquedos como prenda, que não havia computadores, jogos ou outras coisas que as crianças de agora têm, e que afinal, nem é isso que mais precisam.
Pois é, não havia essas prendas, nem o consumismo, mas havia algo que não há hoje em dia: o verdadeiro espírito do Natal… E esse não se compra, não se vende, não se fabrica… Esse nasce em cada um de nós; nasce em conjunto numa pequena aldeia onde todos são como uma grande família… E ainda mais unidos, sempre que chegava esta altura.
Tudo começava no dia 8 de Dezembro, quando à volta da estrada todos aguardavam ansiosamente pelo madeiro, que vinha em carroças puxadas por burros (quando ainda os havia em grande quantidade; sim, porque até os burros hoje estão em extinção). Os grandes troncos de madeira vinham cobertos por lindas colchas, e atrás da carroça, vinham rapazes e raparigas, a cantar canções de Natal.
E todos juntos, fazia-se depois atrás da carroça, o percurso até ao adro da igreja, onde os troncos eram deixados no chão. Ali ficariam até ao dia 24, altura em que lhes pegavam fogo, fazendo assim uma enorme fogueira, que nunca se apagava, e que estaria toda a noite de 24 e todo o dia de 25 a queimar, para aquecer o menino Jesus.
É o Madeiro do Menino Jesus: uma tradição milenar que se mantém ainda viva nesta aldeia, bem como em muitas outras do interior do país, e que espero nunca morra.
Há lembranças que nunca se apagam de nossa memória, e esta que tenho é uma delas: o madeiro a arder em altas labaredas, e as pessoas à sua volta, também elas a aquecerem-se no frio gelado da noite.
Na noite de 24, em trabalho conjunto e alegre de família, faziam-se as filhoses que eram tendidas no joelho. À roda da lareira, com um pano sobre os joelhos, esticavam-se bocados de massa, dando uma forma única a estes doces, que eram depois fritos em azeite e polvilhados de açúcar e canela, ou sem nenhum destes temperos, para serem guardados em arcas para durarem mais tempo.
Tudo tinha de estar pronto até à meia-noite, pois não se podia faltar à missa do galo.
Depois da missa iam todos para casa e deitavam-se.
De manhã cedo, minha mãe e os irmãos, todos crianças nessa altura, tentavam acordar o mais cedo possível, e ficavam todos contentes quando minha avó lhes dava 1 caixa pequenina de bombons. Não havia cá brinquedos, livros ou outras coisas: apenas uma simples caixa de bombons. E esta já fazia a alegria de todos.
Não havia dinheiro para mais… Podiam não ter o que os meninos ricos tinham nesse dia, mas tinham tudo aquilo que seus pais lhes podiam oferecer. E principalmente, um lar onde todos eram unidos, onde reinava não só o respeito para com seus pais, mas também a devoção, o amor e o carinho uns pelos outros.
Eles, sem se darem conta, é que possuíam o verdadeiro espírito do Natal, e hoje, tenho certeza: minha mãe e meus tios tudo dariam para voltar a ser crianças, e poderem ter como presente, apenas uma simples caixinha de bombons…
Tenho poucas lembranças dos Natais que fui passar com meus avós, mas das poucas lembranças que tenho, de todas elas, tenho sempre a mesma sensação: foram os melhores Natais que tive, e nada se lhes compara, mesmo tendo, também eu, recebido apenas uns ovinhos de chocolate (eu, e meus primos). E só hoje, dou o devido valor a esses simples ovinhos de chocolate.

Mas nesta altura também ocorria por aqui outro evento, um pouco sanguinário e cruel para os porcos da aldeia, mas que morriam por uma boa causa, diziam meus avós. Morriam para dar de comer às famílias de fracos recursos, e que passaram o ano todo a engordá-los.
Em Dezembro, os filhos que tinham partido à procura de vida melhor, sempre regressavam a casa de seus pais para ajudar na atarefada matança do porco, e para levarem também eles, quando partissem novamente, o carro atestado de carne e enchidos que dariam para muitos meses do ano seguinte. Lembro-me bem de quando partíamos e meu pai dizia à minha avó: “Oh, ti Maria, não vê que o carro já está cheio? Não vê que não leva mais nada?” Mas a “ti Maria” sempre encontrava mais algum buraquinho para meter mais farnel…
E lá seguia o carro atestado (quando já tínhamos carro, pois lembro-me de antes fazer a viagem de comboio). Seguia atestado com tudo aquilo que minha avó conseguisse lá “enfiar”. E o meu pai, todo o caminho a refilar por ter pouca visibilidade no vidro traseiro…
Lembro-me de que quando regressávamos a casa, minha mãe pendurava os enchidos na chaminé, por cima do fogão, e era esta a visão que teria por muitos meses. Porque os enchidos não ficam logo bons para comer ou cozinhar. Têm de ir secando com o tempo.
Lembro-me de como eram horríveis os grunhidos de sofrimento do porco sacrificado nesta altura, em nome da tradição e da necessidade.
Os homens da família espetavam-lhe uma faca directa ao coração, para que seu sofrimento fosse menor, mas mesmo assim, era um espectáculo a que nunca consegui assistir, pois ao prenderem-no, parece que o porco já pressentia que ia morrer, e guinchava fortemente. Nunca consegui ver o porco a morrer, e por mais que me escondesse, seus grunhidos vinham sempre ter a meus ouvidos.
Pobre porco… pensava eu. Porque tinha de ser assim? Nunca me conformava com a sua triste sorte. É assim a vida e a tradição, diziam-nos os adultos. E pouco a pouco, nós crianças, lá nos conformávamos; afinal, tínhamos de comer.
Depois de chamuscada a pele do porco, tudo nele se aproveitava e seria alimento para meses.
As tripas eram muito bem lavadas no rio, e depois em casa, transformar-se-iam em enchidos de várias espécies, que seriam pendurados no tecto, ainda de madeira, da cozinha. Ali ficariam a secar, até que pudessem ser guardados e comidos. Eram chouriços, farinheiras, morcelas, paios… Tudo feito artesanalmente e pelas mãos hábeis das mulheres. Também eu ajudei a encher muitos… E não haverão nunca no Mundo, mais enchidos como estes: nada que se compare aos de agora, fabricados industrialmente.

E era assim passado o mês de Dezembro: com muito trabalho, mas também com muita alegria e união familiar.
E quando chegasse Janeiro, logo se comprariam novos “bacorinhos”, que engordariam e cresceriam durante todo o ano, para também eles terem o mesmo final que seus pais em Dezembro.

Deixo-vos com uma foto de meus queridos avós, e o resultado do árduo trabalho da matança do porco.
Era uma festa para todos, excepto para o porco, claro…

Um feliz Dezembro para todos vós. Que a paz, a saúde, a harmonia, a alegria e principalmente o amor, inunde vossos lares e corações, e se perpetue pelos restantes meses do ano…

FESTAS FELIZES!