segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Um à parte...

Este meu blog vai crescendo devagarinho, na medida do tempo disponível que tenho. Não está esquecido, nem sequer abandonado, apenas de vez em quando fica parado, à espera que sua dona tenha tempo para ele…
Agradeço os comentários de quem se deu ao trabalho de me ler, e que me incentiva a continuar a escrever.
A todos, o meu muito obrigada! Bem haja!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Quando terminam as férias...


O Verão está quase a terminar e a aldeia já chora os filhos que aos poucos vê partir, pela única estrada que lhe dá acesso. Estes levam na bagagem tantas recordações, momentos e emoções sempre aqui vividas. Levam lágrimas nos olhos, pois deixam para trás seus entes ou amigos queridos. É um pedaço deles que cá fica. Os seus olhos choram, o coração sente um aperto, na garganta um nó e a alma se entristece. Nunca se sabe se cá voltarão, pois a estrada da vida por vezes prega-nos partidas e termina a meio… Por isso se pede sempre, quando se parte, para cá voltar só mais um ano… E é vê-los partir, com os filhos ou netos no banco de trás, voltados para trás a acenar, a dizer adeus não só aos que ficam, mas também à aldeia que sabem ser deles, mesmo que não tenham cá nascido ou mesmo crescido. Será sempre deles, pois é aqui que estão e ficam suas raízes… E o conta-quilómetros vai passando, e eles vão-se afastando. E a saudade já começa a fazer-se sentir. Mas pensam que têm de voltar, pois a vida não é só feita de lazer ou férias. Para ganharem as férias neste local, têm de trabalhar noutro, longe, dentro ou fora do país… E lá se vão os emigrantes ou imigrantes, pela única estrada existente… Acenando às pessoas, às casas, ao campo, às árvores do caminho que parecem acompanhar-nos na corrida, durante grande parte do caminho, pelo menos, enquanto não chegamos à auto-estrada…


Quando viajo, tenho sempre a mesma sensação: à vinda parece que a viagem demora uma eternidade, à ida, chegamos tão rapidamente a casa, que até nos admiramos como pode ser o mesmo caminho. Deve ser porque à vinda, a ansiedade de cá chegar é sempre muita, daí parecer tão longo o caminho… E ao vê-los partir, esta pequenina aldeia fica ainda mais silenciosa do que já era. Só o sino da igreja corta o silêncio do ar com a badalada constante das horas. São tão poucos os que ficam, são tão poucos os que restam, os que sempre se recusaram a sair de sua terra. Mas ficam, e cá continuam o seu dia-a-dia, a maior parte com suas reformas míseras, dadas pelo nosso Estado, mas ficam, e cá vão sobrevivendo para sempre contar histórias de antigamente. Ficam, e ajudam-se mutuamente; são amigos solidários uns com os outros, são como que uma família, e sabem os problemas uns dos outros, as dificuldades por que passam, sabe-se tudo nesta terra. Sabe-se que o filho ou filha de fulano tal se divorciou, e ficou ou não com os filhos e como está a viver, sabe-se que fulano traiu fulana ou vice-versa, sabe-se das doenças que vão aparecendo… Sabe-se que fulano se doutorou em tal especialidade… Sabe-se do filho que nasce; sabe-se do filho que morre… Sabe-se de tudo aqui, mesmo que as coisas aconteçam longe… Aqui as notícias viajam à velocidade da luz e espalham-se que nem a chuva quando cai e se espalha pelos campos. Mas também se assim não fosse, de que falariam os poucos habitantes desta terra? Mas agora fala-se apenas dos filhos que partem e já deixam saudades. Fala-se da vida que levam por “lá”, e de seus empregos… Fala-se de tudo aquilo que sabem ou não sabem deles… É a saudade já a instalar-se. É o telemóvel que toca a dizer-lhes que chegaram bem e eles podem ficar descansados e reiniciar o seu dia-a-dia. Voltar para suas casas, agora tão vazias. E como ficam vazias as casas de quem parte… Como ficam vazias e silenciosas as ruas por onde andaram… Voltamos agora a prestar atenção ao som dos pássaros sempre alegres em final de tarde. E quando se ouve o barulho de um carro pensa-se logo: quem será que lá vem? Quando todos os outros partem… É o Verão que se despede, é a nostalgia do Outono que vai chegando. Antigamente com o Outono recomeçavam aqui as aulas, agora, já há muito a escola fechou, por falta de crianças… E é assim a minha aldeia. Sim, esta também é a minha aldeia, mesmo que não tenha cá nascido ou crescido… É e sempre será a minha aldeia, pois é aqui que estão minhas raízes…

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O rio Erges, em palavras...

Este rio que há séculos traça o seu percurso por entre serras e montes, por entre as pedras e a vegetação, é de uma beleza ímpar.

Aqui, onde ainda não chegou a poluição, e onde espero nunca chegue, podemos deslumbrar-nos com a magnífica paisagem, pela qual ele passa.

E como adoro este local; este rio que corre veloz no Inverno e de mansinho no Verão, lapidando há séculos os seixos e as rochas por onde passa.

Quando era criança, tinha medo de entrar na água, pois sentia as pedras escorregadias e com limo. Pensava que os peixinhos (que não fazem mal a ninguém) me iam picar, e que as cobras de água me iriam atacar… Meus avós diziam: “não tenhas medo, que aqui nada nos faz mal”… Mas quando se é criança, imaginamos tudo e mais alguma coisa que possa acontecer. Por isso, só a partir de uma certa idade, quando começamos a conhecer mais da vida, e a mudar de mentalidade, é que comecei a apreciar e a usufruir como deve ser, de toda esta beleza natural.

Agora, cada vez que lá vou, sento-me numa rocha com as pernas dentro de água e fico muito quieta… Logo vêm ter comigo pequenos peixes que me tocam nas pernas como que a explorar aquele novo e estranho território. E se me mexo, depressa se afastam com medo. Hoje são os peixes que têm medo de mim…

Aqui a água é tão limpa e pura, que podemos ver com clareza o fundo do rio (nas partes mais baixas, claro). Olho para o fundo e vasculho com o olhar à procura de seixos arredondados, para jogá-los ao rio, tentando fazer com que saltem várias vezes, ao bater na superfície da água. Mas não sou perita no “jogo” de fazer saltitar as pedras, e poucas vezes saltam, antes de mergulharem novamente na água cristalina do rio. No início, cheguei mesmo a acertar numa pessoa, tal era a falta de jeito, lol.

Ao final da tarde, temos uma sinfonia de vários sons de pássaros, insectos e rãs: é a natureza repleta de vida. O que mais fica no ouvido, é mesmo o alegre e estridente coaxar das rãs. Umas nas pedras, aproveitam o Sol que resta da tarde, outras mais tímidas, apenas espreitam mergulhadas na água. Olhamos para elas e apenas se vêem os olhos à tona da água. Observam-nas atentas, como que a pensar, que direito temos nós de estar ali a perturbar aquele espaço que é seu por direito.

Ao longo das margens, a riquíssima flora exala aromas que nos enchem as narinas e os pulmões, do mais puro oxigénio. Começo então a mergulhar na nostalgia de outros tempos, e “vejo” minha avó a pôr a roupa a corar nas margens do rio, e a esfregá-la depois nas pedras deste tanque gigante.

Só com sabão, Sol e a água deste rio, ela punha a roupa mais branca, que o mais eficaz dos detergentes de hoje em dia. Aliás, não há “OMO” que lave como a água deste rio…

Depois da roupa bem corada, esfregada e lavada, prendia uma corda ao tronco de duas árvores, e assim, improvisava um estendal onde a roupa ia secando. Enquanto isso, como naquela altura as casas não dispunham de casa de banho, e como quando queríamos tomar banho usávamos bacias, já que estávamos no rio, à espera que a roupa secasse, aproveitávamos e tomávamos banho com o mesmo sabão com que se lavava a roupa, naquela imensa banheira natural.

Embora hoje em dia, a água continue despoluída e límpida, não é como naquela altura, em que era ainda mais pura e cristalina. E como era bom tomar banho ao ar livre. Com tanto calor e o vento suave que sempre aqui corre, nem precisávamos de toalha, pois depressa secávamos. E como ficava sedoso o cabelo lavado nesta água, sem o calcário das torneiras de nossas casas modernas.

Ao passarem na minha memória estas cenas, que também fizeram parte do filme “aldeia da roupa branca”, dou por mim a cantarolar a música:

“Ó rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.
Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu..."


E depois da roupa seca, as mulheres colocavam na cabeça uma rodilha e a trouxa de roupa, e faziam-se ao monte, tendo pela frente a dura subida do mesmo.

Tantos momentos felizes já testemunhou este rio… Felizes, mas também infelizes, pois muita gente o atravessou a pé para o outro lado, muitas vezes em pleno Inverno, para irem contrabandear a Espanha, pois era dura a vida nesta altura, e através do contrabando, sempre entrava mais algum dinheiro extra para as famílias com tantas bocas para alimentar (mas do contrabando falarei em pormenor noutra altura).

Quem aqui vier, não pode deixar de fazer o percurso a pé, e visitar mesmo em frente ao castelo de Penafiel, o majestoso barroco do “salto da cabra”, que vem como que um gigante lá debaixo do leito do rio, estendendo-se pela encosta acima, no comprimento de 100 metros e a altura de 20, semelhante a um navio de proa levantada.

Este é o local mais bonito do rio com enormes fragas formadas por rochedos escalvados, que se elevam a pique de ambas as margens do rio.

Este património exuberante e natural, faz hoje parte do primeiro Geoparque português, sob os auspícios da UNESCO.

As paisagens que este rio atravessa, ao longo de quilómetros, são avassaladoras e a riqueza botânica atinge o seu auge em Abril, sendo o refúgio temporário ou permanente, de mais de uma centena de espécies de aves de que se salientam, pelo seu porte, as aves de rapina e a cegonha-preta.

Este é o domínio das águias-reais, dos grifos e de outras aves que, lá do alto, espreitam as brincadeiras das lontras no rio.

É por toda esta diversidade biológica que grande parte do Erges desde a sua foz até Salvaterra do Extremo, se integra no Parque Natural do Tejo Internacional.


Este é um rio tipicamente mediterrânico que se transforma, em alguns locais, num deserto de seixos no Estio ou mostra toda a energia de um rio ainda selvagem, após grandes chuvadas. E é toda esta capacidade de erosão que formou três gargantas numa curta distância, sendo uma delas em Salvaterra, e garanto que quem lá conseguir chegar, nunca esquecerá a deslumbrante paisagem que o rio esculpiu nas rochas com o passar dos séculos…
Para quem aprecia e ama a natureza, não há local mais bonito para passear e se deslumbrar... Mas não se esqueçam de deixar o carro à porta de casa, calçar uns ténis, mochila às costas com farnel (que isto de andar muito, cansa e estes ares abrem o apetite, lol...) e a máquina fotográfica para depois mostrar aos amigos, as belas paisagens por onde passaram...

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O rio Erges em imagens...


O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai,
E de onde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia…

Excerto de “O Tejo é mais belo” (do “Guardador de Rebanhos” – Alberto Caeiro)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O céu estrelado de Salvaterra...

Numa noite quente e céu límpido de Agosto, olhamos para o céu e deslumbramo-nos com o mais belo espectáculo que a natureza nos pode oferecer.
Não há palavras suficientes que descrevam tamanha beleza.
E como me sinto pequenina no Universo a olhar para toda aquela imensidão celeste.
Sou capaz de ficar horas, assim. Lembro-me de quando meus avós eram vivos, e no tempo em que a electricidade ainda não tinha chegado a esta aldeia, sentávamo-nos à noite, na pedra que está à porta, a sentir o fresco da noite. E enquanto todos conversavam, eu ficava a olhar para o céu, até me doer o pescoço. Olhava e imaginava como seria bom poder ir lá acima, e a imaginação voava para todas as maravilhas que ali poderia encontrar. Acho que veio destas noites, o sonho desde menina, de ser astronauta. Hoje sorrio ao pensar neste sonho, mas quando se é criança, até se acredita. Porque não acreditar? Esta é a magia de ser criança…
Pois é, desde cedo comecei a viver no mundo da “Lua”. E hoje, já mulher, não resisto cada vez que cá venho, a voltar a olhar para o céu em certas noites de Agosto. Parece até que este é o melhor mês para observar os astros, e aqui, então, é extraordinário.
É uma sensação maravilhosa e grandiosa olhar para toda aquela imensidão do Cosmos e faz-me sentir tão pequenina. Como é pequeno e frágil o nosso mundo. Somos apenas uma gota na imensidão do Universo.
Quando olho o firmamento, minha alma enche-se sempre de inquietação. É o encantamento que só os poetas têm o dom de captar e transformar em palavras. É a grandiosa expressão da mais perfeita obra do Criador.
Quando ao sabor da suave brisa celeste, elevo meus olhos para o céu, parece que todos os problemas ficam para trás; parece que nada de mau me aconteceu na vida, e a minha mente enche-se de pensamentos de optimismo e coragem em relação à vida.
Quando o leve aroma da noite toma conta do ar que respiro, inspiro e encho meu ser de uma enorme sensação de paz e tranquilidade, deixando-me em harmonia com tudo o que me rodeia e com todos.
Ao fundo, oiço uma linda sinfonia, num ritmo orquestrado pelas criaturas da noite, pelos ventos uivantes que me vêm beijar a face, e deixo-me transportar pela imaginação. De repente sou criança outra vez. De repente, vejo-me de novo sentada naquele mesmo banco, e com meus avós ao lado. Ainda me lembro de algumas de nossas conversas que tivemos ali, em que meus avós me diziam incrédulos: “Oh filha! Mas tu acreditas mesmo que o homem foi à Lua? Acreditas que ele conseguiu construir aquele foguetão, e que conseguiu lá chegar? Filha, tu não acredites em tudo o que vês na televisão…” E eu sorria, e por mais que tentasse convencê-los que sim, que era verdade, nada os demovia na sua opinião. Acho que só passados muitos anos, e devido ao avanço da tecnologia, é que eles começaram a acreditar em certas coisas, não sei…
Quando surgiu a Rádio Monsanto, lembro-me de muitos serões passados à porta de casa, a sintonizar a rádio. Quando os filhos lhes ofereceram o rádio disseram: “ai, mas para que é que trouxeram cá isso? Precisamos agora nós cá disso…” Mas depois, nunca mais largaram o rádio, e já não passavam sem ele. Ali, ainda não tinha chegado a TV, daí este ser o único meio de que dispunham, para saber novas do Mundo e do país. E quando chegava a hora dos discos pedidos, estavam sempre sintonizados e fazia-se silêncio quando cantava este ou aquele cantor. Lembro-me de uma música em especial que meu avô adorava: “eu tinha um cavalo russo”. Como ele viva esta música… Acho que até sabia a letra de cor.
Belos tempos que não voltam mais…
E é assim quando nesta aldeia olho o céu: parece que todas as lembranças de uma vida me vêm à mente. Umas relembro-as com carinho e saudade, outras relembro-as como lições que a vida me deu e todos os caminhos que poderia ter seguido e não segui…
Com o passar da noite, quanto mais olho aquela imensidão, mais sinto que tudo o que é mau se esvazia de minha alma, e tudo o que é bom começa a correr por minhas veias. É a purificação natural da alma.
Aos poucos, fundo-me com a serenidade que me envolve, e como que renasço outra vez, encontrando motivos para continuar a viver cada vez mais e intensamente, tentando melhorar a cada dia e evitar cometer novamente os erros do passado.
Aqui, parece que inspiro no ar da noite uma coragem renovada.
De novo elevo meus olhos e deslumbro-me com a manta escura no céu estendida, repleta de estrelas luzentes e astros perdidos que vagueiam eternos.
Aqui, numa só noite, vejo imensas estrelas-cadentes. Aproveito e peço a cada uma um desejo, geralmente, sempre o mesmo (não é preciso muito para eu ser feliz).
Mas depois, lembro-me das aulas de Ciências: estrelas-cadentes são apenas meteoros que vagueiam pelo espaço, e que ficam incandescentes ao passar pela nossa atmosfera, ou seja: o rastro luminoso, dura apenas uns segundos, talvez por isso elas não tenham tempo sequer de realizar nossos desejos…
Sou assim eu, quando olho para o céu: penso em tudo e mais alguma coisa… Em milésimos de segundos, nem sei quantos pensamentos me ocorrem… Meu pensamento chega a ser mais rápido que uma estrela-cadente, lol.
Mas tantos como eu já olharam o céu. Por cima de nós encontra-se toda a sabedoria do Universo. Em tempos antigos, era no céu que os sacerdotes buscavam respostas para as suas indagações, que o marinheiro encontrava o rumo certo no mar, e que o lavrador descobria a época adequada para lançar a semente à terra. Tudo estava escrito nos astros, até mesmo a nossa vida…
Ao pensar nisto, procuro no céu uma resposta a minha perguntas, e o céu responde-me que só o tempo as dará…
Com o avançar da noite, e depois de muito tempo a vasculhar com o olhar, todos os recantos daquele pedacinho de céu, consigo vislumbrar a “estrada de Santiago”. Foi meu avô quem me ensinou como encontrá-la, bem como certos conjuntos de estrelas, como a Ursa-maior ou menor, as pleides, etc… E foi ele também que me contou a lenda associada à estrada de Santiago: “aquilo é um caminho no céu”, dizia ele. “Mas um caminho para onde?, perguntava eu. E ele respondia na sua imensa sabedoria: “é o caminho que fazem, em direcção ao céu, as almas penadas quando morrem. Todas as almas percorrem aquela estrada no céu…”
E eu deslumbrada, ouvia as suas histórias; histórias que passaram de geração em geração. Histórias que também um dia hei-de contar a meu filho…
Aqui há o mais lindo céu que possam imaginar. Uma beleza ímpar, que não há nas cidades ofuscadas por tantas luzes. E só aqui me sinto em paz com o Mundo e comigo mesma…
Este é um lugar especial, onde tudo parece ser possível; é um lugar que deixa muitas saudades a quem parte, e a esperança de sempre cá voltar…

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Um simples gesto, que tanto diz...


Hoje, enquanto esperava a minha vez para ser atendida pelo dentista, sentada há mais de uma hora à espera, fui observando quem ia entrando e saindo daquela clínica.
Depois de se estar sentada há mais de uma hora à espera, já tivemos tempo de ler todas as revistas ali expostas, e só nos resta olhar uns para os outros. Às vezes olhamos, e nem estamos a ver nada. Olhamos só por olhar. Às vezes as pessoas até podem pensar: “para onde está aquela a olhar?”, e nem sequer as estamos a olhar com olhos de ver.
Mas ali sentada à espera, e já sem posição de estar na cadeira, depois de já ter lido uma data de revistas, outras apenas folhear, depois de já ter lido vezes sem conta os placards nas paredes, eis que entra um senhor já de idade. Dirige-se à recepção e pergunta: “a minha esposa já saiu?” Ao que a recepcionista responde que não, e ele vai sentar-se. É mais um que se junta a nós; ao grupo dos “esperas”.
Perdemos tanto tempo na vida à espera de ser atendidos, nas mais diversas ocasiões… Às vezes até com sonhos perdemos tempo; sonhos que esperámos ver atendidos e foram pura perda de tempo. Mas ao menos, enquanto sonhámos fomos felizes, na espera, na incógnita do que iria acontecer…
Mas voltando ao senhor de idade, que devia estar na casa dos 60 ou 70, não sei.
Naquela clínica existem várias especialidades médicas, entre as quais fisioterapia.
De repente, vejo sair de uma sala uma senhora a ser empurrada numa cadeira de rodas por um homem de bata branca, que segundo o cartão trazido ao peito era fisioterapeuta. Imaginei qual seria a maleita daquela senhora, coisa que nunca vim a saber, mas o que me marcou mesmo, foi o gesto do senhor de idade que por ela esperava. Assim que a viu sair, levantou-se e dirigiu-se a ela, dizendo-lhe: “por hoje estás despachada!” Ela apenas sorriu, mas um sorriso triste; o sorriso de quem está doente, talvez…
O fisioterapeuta concordou dizendo: “por hoje está despachada e amanhã será um outro dia”.
O marido, então, olhou para ela novamente e passou-lhe a mão no rosto, fazendo-lhe uma carícia. E foi aquele gesto que me marcou: a ternura no olhar dele para com ela. Um simples gesto, que tanto disse; um simples gesto que fala só por si…
E eu fiquei a pensar: “na saúde e na doença…” Na saúde, mas principalmente na doença, que é quando mais precisamos do outro…
E eu fiquei a pensar como seria eu naquela idade (se lá chegar, claro), e principalmente, terei eu o carinho de alguém que goste de mim, ainda que doente? Alguém que se preocupe comigo e cuide de mim se eu não puder?
Porque infelizmente, hoje em dia, nada é eterno, como já me disseram tanta vez. Hoje em dia ninguém se preocupa com o outro, apenas consigo mesmo.
E como será que a geração de hoje quando tiver aquela idade se vai comportar? Assusto-me só de pensar nisso.
Queria tanto ter a relação que têm meus pais, que tiveram até meus avós, a quem dedico todo este blog. Uma relação em que nem sempre tudo vai bem, mas uma relação em que há principalmente: respeito, amizade, carinho e ainda amor… Porque no fundo, o amor constrói-se e solidifica ao longo dos anos. O amor são duas vidas que crescem juntas, que ultrapassam obstáculos e idealizam juntos uma vida.
A alma gémea, já não acredito que exista, a pessoa perfeita para nós não existe, pois ninguém é perfeito. E aquele que te parecer perfeito um dia, foge dele a sete pés, pois é só fachada…
Procuramos alguém perfeito, para completar as nossas próprias imperfeições, e só anos depois é que chegamos à conclusão que a alma gémea, é afinal, a pessoa que nos faz pensar, que nos faz enfrentar os problemas, é a pessoa com quem discutimos, mas também nos reconciliamos.
É a pessoa com quem até nos podemos chatear todos os dias, mas com quem sempre podemos contar. É a pessoa com quem planeamos o futuro…
Não existe nenhuma relação perfeita, existe sim a capacidade de enfrentar os problemas e as discórdias quando surgem. E esta capacidade tiveram-na meus avós, têm-na meus pais e tantos outros casais, como aquele hoje lá da clínica.
Há gestos que valem mais que mil palavras…
Infelizmente, hoje em dia, o mundo anda tão desprovido de simples gestos como aquele…
Cada vez estamos mais empobrecidos como seres humanos…

segunda-feira, 30 de junho de 2008

O pôr-do-Sol em Salvaterra...

Aqui neste recanto
Mesmo no extremo de Portugal
Existe o mais lindo encanto,
Um pôr-do-Sol como não há igual.



Tantas vezes o admiro
Se as nuvens o não escondem
Foi por mãos divinas pintado
E a meus apelos parece que respondem.



Nunca viste nada assim
Um completo deleite para a alma
Só de observá-lo nos sentimos
Em harmonia, paz e calma.



Cores deslumbrantes,
No mais lindo entardecer.
Com ele vem a melancolia
Que nos faz no tempo perder.



Na memória ficaram meus avós
Que sempre nos acolhiam com ternura
A eles dedico estes versos
E estas imagens de candura.



Nunca vos disse que vos amava
Só para mim guardei certos pensamentos.
Acabaram por ir embora
Sem saberem de meus sentimentos.



E hoje olho o pôr-do-Sol
Sol que se encontra quase posto
Aqui no mesmo quintal
Onde meus avós o viram exposto.



Não há maior fascínio
Que esta maravilha solar
Todos a podem ver
Mas só alguns, seu coração tocar.



Amanhã pela tardinha
Nos voltará a deslumbrar
Peço a Deus muitos anos
Para o poder sempre contemplar.



Meus olhos se encherão de fogo
Com o enorme disco solar
E meu coração encontra a paz
E de novo, me fará sonhar…

Cristina R.

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